Almas Públicas

Marcello Quintanilha

Conrad Editora, 2011

 

POR Velot Wamba publicado em 19.07.2011

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Assim como o que foi falado sobre o MC Ogi nesta edição (leia o review de Crônicas da Cidade Cinza na seção de discos), Marcello Quintanilha (ex-Marcello Gaú) tem predileção pelo que se passa na vida da “gente miúda”. Não é de se estranhar que ele seja, indiscutivelmente, o maior cronista das HQs nacionais.

Neste seu lançamento mais recente no Brasil (o autor vive na Espanha), Quintanilha fabula um rol de “almas públicas”que têm vida plena nos limites de cada quadrinho, e vivem com tamanha textura, que a experiência é compartilhada pelo leitor. Como Hugo Pratt com seu Corto Maltese, só que com dezenas de personagens, e com uma diferença fundamental de perspectiva: se, em Pratt, o marinheiro errante fazia do mundo seu quintal, em Quintanilha os quintais de cada história evocam vivências universais. Tais vivências estão por todos os lados, seja no jogador da segunda divisão do campeonato baiano que ganha notoriedade fugaz, no amor de um cidadão humilde que a cada ano experimenta uma vida plena nas três noites de carnaval, ou no assanho da bicha pobre Tião Pomba-Gira, que mexe com a libido e a culpa de um botequeiro de subúrbio. 

São sete episódios, algum deles publicados anteriormente no álbum Fealdade de Fabiano Gorila (1999), também pela Conrad, que definem um microuniverso que, graças ao talento enorme do autor, explica vidas inteiras em um único quadrinho. Como um trabalho de Goya ou Rugendras, só que aqui tudo é absolutamente HQ, sem apelo a citação, sugestão ou mimese de procedimentos de outras linguagens. O talento de Quintanilha se assemelha ao de Loustal quando este lida com a tradição francesa, mas em chave brasileira até o último rabisco. E, assim como faz Loustal, suas histórias se encontram em um meio termo de fabulação que faz do leitor co-autor da obra, encenando um antes ou depois para cada fragmento de vida escancarado em suas crônicas. Em Almas Públicas, um mundo inteiro – corriqueiro, cotidiano e, por isso mesmo, mais profundo – é encenado em um espaço exíguo. Quintanilha é, mais do que um grande artista de seu meio, um gênio urgente, essencial, com histórias na cadência de um bom samba malemolente. 

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 marcello quintanilha, almas públicas

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