The Cherry Thing

The Thing & Neneh Cherry

Smalltown Supersound, 2012

 

POR Raquel Setz publicado em 29.06.2012

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The Thing: trio sueco comandado pelo saxofonista Mats Gustafsson que tempera o free jazz com toques de agressividade tipicamente punk.

Neneh Cherry: cantora sumida que fez um sucesso tímido no fim dos anos 80 e nos anos 90 com um som que vacilava entre o pop sem-vergonha e gêneros como rap e trip-hop (caso a memória esteja falhando, clique aqui, aqui ou aqui).

Se por um lado, a parceria entre os dois parece um lance bizarro à lá Metallica & Lou Reed, por outro, é até um tanto óbvia: Neneh é filha do lendário trompetista de free jazz Don Cherry e foi em um tributo a ele que o saxofonista Mats Gustafsson, o baixista Ingebrigt Håker Flaten e o baterista Paal Nilssen-Love subiram juntos em um palco pela primeira vez. O encontro entre o trio e a cantora fez com que Neneh explorasse novos territórios musicais e novas possibilidades com a voz, enquanto o The Thing teve que economizar na barulheira e dar mais ênfase aos arranjos do que à improvisação. O resultado é um disco basicamente de covers (com exceção de uma faixa de autoria de Gustafsson e outra composta por Neneh) que passeia por vários climas e gêneros: do sensual ao agressivo, do melodioso ao ruidoso, do revolucionário Ornette Coleman ao alucinado MF Doom.

A faixa que melhor sintetiza o equilíbrio de forças opostas é “Dream Baby Dream”, cover do seminal duo nova-iorquino de punk/no wave Suicide. Se a original parecia uma canção de ninar tocada por viciados em metanfetamina, a nova versão ganhou a suavidade que a letra pedia, ao mesmo tempo em que vai, aos poucos, dando lugar a uma torrente de ruídos que toma conta de tudo lá pelos 4 minutos – enquanto o vibrafone segue martelando a mesma melodia delicada, sem perder a ternura jamais.

A maioria das oito faixas de The Cherry Thing segue esse mesmo esquema: começam comedidas e seguem em um crescendo lento até que o The Thing explode em improvisação vigorosa, com o sax de Gustafsson em primeiro plano. Não deixa de ser uma fórmula, mas que funciona perfeitamente sem cair no sacal. Além disso, a variação faz com que o disco seja uma audição fácil (ao menos para quem tem um mínimo de familiaridade com barulho) e extremamente prazerosa. Se tivesse que passar uma semana inteira só com esse disco, colocaria no repeat e seria feliz.

Don Cherry, como era de se esperar, também está presente no cover de “Golden Heart”, mas a abordagem dada não tem nada a ver com a onda mórbido-marqueteira de filhos de ilustres falecidos tentando encarnar os pais (oi, Maria Rita). Na verdade, esse é o cover que mais se distancia do original. Na gravação de Don Cherry, trata-se de uma música instrumental misturada a outras três faixas no lado A de Complete Communion, de 1965. Na nova versão, ela ganhou letra e uma aura levemente mística que, por algum motivo que a razão não consegue explicar, não ficou nem um pouco ridícula.

Também merecem destaque a ultra-sexy “Dirt”, tirada do disco Funhouse, em que os Stooges exploraram o potencial subversivo do free jazz, e o rap desconstruído de “Accordion”, do MF Doom. Na verdade, o disco todo é delicioso, sem nenhum momento de monotonia – o fato de ser um álbum enxuto, de apenas oito faixas, também ajuda. The Cherry Thing é um disco revolucionário, que funda um novo gênero ou muda nossas convicções sobre a música? Não. Nenhuma análise filosófica vai brotar desse disco e nem era essa a ideia. Trata-se de quatro profissionais talentosos botando seus cérebros para funcionar e, assim, criar uma bela homenagem aos artistas que os influenciaram. Na minha opinião, o trabalho de carpintaria musical desenvolvido por The Thing e Neneh Cherry é simplesmente perfeito. Sorte nossa.

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