2011: A Arte No Brasil em 20 Exposições

A convite da Soma, colaboradores elegem os destaques das mostras, museus e galerias no país

POR CAMILA ALAM
publicado em 20.01.2012 12:05  | última atualização 20.01.2012 14:40

Melhores 2011 Soma . Exposições POR

Escolher as melhores exposições brasileiras de 2011 foi tarefa difícil. Super mostras coletivas, grandes individuais e muitas produções inéditas fizeram deste um ano emblemático para a maneira como se faz, frui, discute, consome e vende arte no Brasil. Isso porque nunca se viu tanta movimentação nas instituições culturais, em parte por causa de importantes artistas que pouco vemos em detalhes por aqui. Tanta comoção fez gerar ainda mais público e, consequentemente, mais grana no mercado também. No fim, todo mundo saiu ganhando.  Listamos a seguir as 20 mostras preferidas do staff de colaboradores da Soma - participaram da votação Camila Alam, Flavio Samelo, Marina Mantovanini, Natalia Lucki, Daigo Oliva, Edu Monteiro, William Baglione, Tiago Moraes e Ana Ferraz. Entre as eleitas há espaço para nomes nacionais já consagrados, gringos de várias gerações que fizeram sua estreia no país e novos nomes merecedores da nossa atenção. Confira um resumo cronológico do melhor de 2011 do que foi o ano e torça os dedos para que, em 2012, a boa safra continue.

Rodchenko: Revolução na Fotografia . Pinacoteca do Estado de São Paulo




A Revolução na Fotografia apresentou livros, cartazes, fotografias e revistas deste que se tornou um dos grandes mestres do construtivismo alemão. Séries clássicas de sua fotografia, como as dos atletas soviéticos ou dos trabalhadores de fábricas, estavam presentes na exposição e são essenciais para conhecer sua obra. Revistas de colagem raras, feitas em parceria com o poeta Vladimir Maiakóvski, também acentuavam o ineditismo da mostra.

Sob o Peso dos Meus Amores: Leonilson . Itaú Cultural



Um dos artistas mais viscerais da arte brasileira ganhou homenagem à altura no Itaú Cultural, em uma das mostras mais comentadas e elogiadas do ano. Cearense, aluno de Nelson Leirner, Leonilson é autor de peças de caráter ultra pessoal, influenciadas por memórias, amores e doenças. Entre as mais de 300 obras - desenhos, pinturas, bordados – havia algumas inéditas, feitas em parceria com o alemão Albert Hein. Cadernos pessoais e agendas do artista ajudavam o visitante a conhecer melhor seu universo.

Paula Rego . Pinacoteca do Estado de São Paulo



Apresentada em ordem cronológica, a mostra de Paula Rego na Pinacoteca trouxe um extenso panorama de sua trajetória, com mais de 100 obras, entre pinturas, desenhos e colagens. Enigmáticas, as pinturas da artista portuguesa abordam o ambiente familiar e feminino, mas quase sempre com um quê de esquisitice. São assim as obras referenciais como The Pillowman e The Family, que vieram pela primeira vez ao Brasil.

Laurie Anderson I in U . CCBB RJ



Em sua passagem pelo Brasil, a artista multimídia Laurie Anderson realizou palestras, performances e painéis nos CCBB do Rio e de São Paulo. Uma chance única de ver a artista, colega de geração de John Cage, Phillip Glass e William Burroughs, em ação, mesclando tecnologia e linguagem corporal, que lotou todos os eventos por onde ela passou. A exposição reuniu um apanhado de vídeos, instalações, músicas e desenhos, além de uma vasta documentação de antigas obras produzidas por Anderson desde a década de 1970.

Mundo Mágico de Escher . CCBB SP



A primeira mostra retrospectiva de Escher aconteceu na Europa, em 1968, apenas quatro anos antes de sua morte. No Brasil, o artista gráfico holandês ganhou uma enorme homenagem, que foi grande sucesso de público por onde passou (Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo). Foram cinco anos de negociação para trazer ao país as frágeis peças do artista, a maioria em litogravura ou xilogravura. Mas a exposição Mundo Mágico de Escher conseguiu, sobretudo, aliar arte e diversão, apresentando, além do acervo de gravuras, dez peças interativas nas quais os espectadores podiam mergulhar no ambiente de perspectivas fantásticas e arquiteturas absurdas do artista.

Louise Bourgeois: O Retorno do Desejo Proibido . Tomie Ohtake




A obra da francesa Louise Borgeois (1911-2010) chegou em ampla exposição à América Latina pela primeira vez.  Apresentada inicialmente em Buenos Aires, a mostra O Retorno do Desejo Proibido visitou Rio e São Paulo com mais de cem obras – entre instalações, desenhos, esculturas e objetos – de alto teor psicanalítico. Em sua produção, Louise costumava abordar traumas de infância, representações do inconsciente e memórias autobiográficas. A mostra dava atenção especial a uma série de textos inéditos da artista, mais tarde lançados em catálogo.

No Ateliê de Portinari: 1920-45 . MAM



Uma boa sacada do MAM foi dividir a produção de Cândido Portinari em cinco blocos, o que deu ao visitante uma noção de boa parte da produção do artista, desde os estudos acadêmicos da Escola Nacional de Belas Artes às paisagens brasileiras que o consagraram, como Domingo no Morro (1935) ou Paisagem de Brodowski (1940). Portinari se dedicou muito pouco a abstração, mas o MAM também exibiu algumas obras desta fase menos conhecida do artista.  

Fake Sunset . Galeria LOGO




A influência que o estado da Califórnia exerce sobre o imaginário do mundo era o tema desta mostra na galeria Logo, que trouxe gringos e brasileiros como Sesper, Lucas Cabu, Fabio Bitão, Talita Hoffmann, Anthony Nathan, Lucas Torres, Alberto Monteiro, Aiyana Udesen, Matt Furie e Jeremy Fish. Assim, as paredes foram tomadas por fotos, desenhos e pinturas que remetem ao estilo de vida californiano, feitas por artistas brasileiros e gringos. Praia, skate, pôr do sol, hardcore e outros elementos que fizeram da Califórnia um ícone pop foram retratados nas pinturas de Furie ou nas fotos de Bitão. A exposição correu o Brasil e cada cidade recebeu instalações diferentes.

Dea Lellis . Thomas Cohn



Doze telas inéditas da paulista Dea Lellis foram apresentadas na Thomas Cohn, reforçando a pesquisa que a artista vinha fazendo desde sua primeira individual, realizada no Espaço Soma em 2009. De lá pra cá, as telas de mesmo tamanho médio e muito branco deram lugar a grandes formatos mais coloridos. Mas seu universo, ainda que lúdico, continua a retratar as mitologias nórdicas com toques delicados de violência e ironia.

De Dentro e De Fora . MASP



Nem em sonho o museologista ítalo-brasileiro Pietro Maria Bardi (1900-1999) deve ter imaginado que um dia o museu que ajudou a criar seria invadido por uma arte dita “de rua”. Depois do sucesso de público trazido por De dentro para Fora/De fora para dentro, de 2010, o MASP retomou à street art com De Dentro e De Fora, também em parceria com a galeria Choque Cultural. Desta vez, apresentou alguns dos principais nomes da arte de rua gringa, muitos nunca vistos no Brasil. O mais legal foi ver alguns destes artistas, como Point/Cakes e Space Invader, saírem do espaço expositivo, se jogando na paisagem urbana e explorando os muros de São Paulo.

Saul Steinberg: As Aventuras da Linha . Pinacoteca do Estado de São Paulo




Mais conhecido por ter ilustrado centenas de páginas da revista The New Yorker, o cartunista Saul Steinberg gostava de trabalhar em série. Essa característica de sua produção ficou clara na exposição da Pinacoteca, na qual desenhos exploram em série diversos personagens e objetos, como caubóis, pássaros ou trens. Ainda da década de 50, Steinberg veio ao Brasil para uma mostra no MASP. Algumas das imagens exibidas naquela época voltaram a São Paulo restauradas.

Nelson Leirner 2011-1961 = 50 Anos . FIESP




Um dos maiores nomes da arte brasileira, Nelson Leirner permeou sua produção com apropriações, intervenções e críticas à própria arte inseridas no diálogo contemporâneo. Ao longo dos anos, investigou as noções de arte e seus processos criativos. Com bom humor, dedicou-se a parodiar o circuito e seus ícones, instigando o espectador a refletir. Na FIESP, a mostra 50 Anos apresentou uma retrospectiva de sua carreira, incluindo Um, nenhum e cem mil, uma grande instalação realizada ao longo dos últimos 15 anos.

Joseph Beuys: A Revolução Somos Nós . Sesc Pompeia




O alemão Joseph Beuys dedicou muito de sua arte às ideias políticas. Não à toa, criou slogans marcantes como A Revolução Somos Nós ou Arte=Capital, eternizados em centenas de cartazes de sua autoria. Esta retrospectiva no Sesc Pompeia apresentou diversos múltiplos e instalações do artista, mas nunca antes uma reunião tão vasta desses cartazes havia sido exibida ao público brasileiro. Ao todo eram 200 exemplares, vindos de uma coleção particular, que subiam as paredes do espaço expositivo, disseminando as ideias de um gênio para quem nenhuma arte é revolucionária se não for formalmente desafiadora.

Carlos Dias: Outro Plano . Choque Cultural



Em sua última individual na galeria Choque Cultural, Carlos Dias aproveitou as salas da casinha para apresentar mais do que as suas tradicionais pinturas em telas e paredes. Um dos cômodos recebeu uma instalação audiovisual, com vídeos, clipes e música, feita em parceria com a dupla Avalanche. Em outra sala, telas de diferentes tamanhos, pinturas em madeira e desenhos. Esta exposição afirmou ainda mais o caráter multidisciplinar do artista, sem deixar de lado sua produção em pintura multicolorida, caótica e um tanto naif.

Em Nome dos Artistas . Bienal de São Paulo




Em Nome dos Artistas foi realizada pela Fundação Bienal para comemorar seus 60 anos. Acabou sendo, podemos arriscar, melhor do que muitas Bienais já realizadas pela fundação nos últimos anos. Reunindo grandes nomes da arte contemporânea e sua produção dos últimos 30 anos, a mostra trouxe peças de Damien Hirst, Jeff Koons, Cindy Sherman, Nan Goldin – para citar alguns – oriundas da coleção da norueguesa Astrup Fearnley. Além de fazer um retrato da evolução da contemporaneidade em salas individuais para cada artista já consagrado, a mostra ainda abriu caminhos para reflexão sobre o que vem por aí mostrando peças de artistas pouco conhecidos.

Olafur Eliasson: Seu corpo da obra . Pinacoteca do Estado de São Paulo e SESC



As instalações de grandes dimensões são a marca deste artista dinamarquês. Elas nos fazem refletir sobre os espaços arquitetônicos e suas interações com os fenômenos naturais. Em sua primeira individual na América Latina, não foi diferente. O artista tomou quatro grandes espaços da Pinacoteca do Estado e de unidades do SESC para apresentar diferentes obras. A mais emblemática era uma estrutura gigante de espelhos móveis que subia em direção ao teto. Ao absorverem a luz externa, os espelhos formavam um caleidoscópio com as imagens da clássica arquitetura do local.

Queremos Miles! . Sesc Pinheiros



Quem não quer Miles? A montagem da mostra no SESC Pinheiros tinha tudo que um bom fã podia querer. Muitos vídeos, fotos, instrumentos, figurinos e, claro, música. Em salas escuras ou em spots com iluminação direcionada, a história de um dos inventores do cool jazz foi contada cronologicamente, contemplando todas as suas fases, da infância ao último show. Um painel de Basquiat em homenagem ao ícone abria a exposição. Tudo ao som de seu trompete.

Lugares Estranhos e Quietos: Wim Wenders . MASP



No segundo andar do MASP, naquelas salas amplas e vazias, 23 fotografias no cineasta Wim Wenders foram apresentadas em grande escala. Cenas de lugares inóspitos – paisagens igualmente amplas e vazias – compunham a série Lugares Estranhos e Quietos.  Nas ampliações, países por onde o cineasta passou em filmagens, como Japão, Israel, Armênia e o Brasil, onde Wenders registrou São Paulo e Salvador. Inéditas no país, as fotografias demonstravam uma outra faceta do diretor, não menos intrigante que sua produção cinematográfica.

Steve McCurry: Alma Revelada . Instituto Tomie Ohtake




Steve McCurry provavelmente será sempre lembrado por sua foto mais famosa: A Menina Afegã, capa da National Geographic em 1985. No Tomie Ohtake, essa e outras fotografias, aulas de fotojornalismo, impressionaram pelas cores marcantes e pela capacidade que McCurry tem em tornar seus personagens incrivelmente próximos do espectador. Para além daqueles olhos verdes, o fotógrafo americano registrou cenas dos mais diversos conflitos – políticos, sociais e familiares – ao redor do mundo, especialmente na África, no Oriente Médio e na Ásia. Em uma série especial sobre o atentado de 11 de setembro, o fotógrafo registrou equipes de socorro e os prédios queimando sob ângulos diversos.

Preguntame Como! . Galeria Logo




A Galeria Logo reuniu nesta exposição sete pintores contemporâneos nascidos ou radicados em Buenos Aires: Nicolás Sobrero, Lin Yi-Hsuan, Martín Legon, Gustavo Eandi, Andrés Bruck, América Sanchez e Paul Loubet (sob curadoria de Tristan Rault). Influenciados pela cultura pop e pela arte de rua, os artistas forneceram um ótimo panorama da vibrante arte portenha atual, que varia entre o quase abstracionismo e a figuração. Foram apresentadas mais de 160 obras, como pequenas telas a óleo, serigrafias, instalações e grandes painéis de graffiti sobre papel. Em tempos de conexões periféricas em alta, uma chance preciosa de comprovar que, apesar da distância em tempos recentes, a arte latina segue caminhando lado a lado.

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