Bonifrate e as Fumaças do Mundo Visível

Pedro Bonifrate, do Supercordas, fala sobre o processo de composição de seu novo álbum solo, "Um Futuro Inteiro"

POR AMAURI STAMBOROSKI JR.
publicado em 12.12.2011 17:11  | última atualização 16.12.2011 00:34

POR Fernando Martins Ferreira

“Maneiro mesmo é estar”, começa a voz processada num mar de microfonias, “dentro de uma bolha qualquer”. O carioca Pedro Bonifrate, vocalista e principal compositor do grupo de rock psicodélico Supercordas, encerra seu novo álbum solo, Um Futuro Inteiro, pelo começo de tudo, a faixa “Eugênia”. Misto de lamento pós-pé-na-bunda e investigação surrealista, o álbum é a grande obra do folk brasileiro em 2011, e nasceu a partir do épico de onze minutos que fecha as cortinas do disco. Antes disso, há festas loucas, danças lentas e o advento de uma nova inspiração urbana, algo distante do ruradelia da obra do Supercordas. Em uma longa entrevista em São Paulo, a Soma conversou com o bardo sobre “o pulso das canções” e as “fumaças do mundo visível”.

Quando você pegou no violão pela primeira vez?

Provavelmente não lembraria da primeira vez, porque desde que eu nasci tem um violão em casa e os meus pais não são músicos, nunca aprenderam a tocar, minha mãe comprou antes de ir para a África, em 77 (a família morou um ano em Guiné Bissau). Ela queria aprender a tocar lá, eles eram muito pilhados em música africana e cabo-verdiana, então sempre teve esse Di Giorgio. Foi em algum momento muito antigo da infância que eu peguei ele.

Quem foi que te inspirou a compor? Foi um cara ou foram vários?

Foram vários, com certeza, mas eu acho bastante válido dizer que foi o Syd Barrett, ainda que não desde o começo. Eu não ouvi essas coisas solo do Syd Barrett, ou o primeiro do Pink Floyd, quando fiz minhas primeiras músicas. Mas eu não considero realmente esse material, achava que eram coisas muito bobas e infantis. Quando eu comecei a perceber, “isso tem que ficar, isso pode ser interessante dessa forma”, foi já com The Piper At The Gates of Dawn na cabeça.



Quando você começou a se juntar com gente pra montar uma banda?

Em Paraty eu conheci o Diogo [Valentino, membro do Supercordas] e a gente começou a tocar. Tínhamos um trio, com um batera que era um gênio, ele morava numa casa de pau a pique, tinha que atravessar umas pinguelas pra chegar, você entrava e ele estava ouvindo um disco do Iron Maiden (risos). Era uma banda cover de cidade pequena, mas era a única banda de grunge, de rock inglês, que tinha em Paraty. Até hoje tem uns loucos que às vezes chegam, geralmente é gente bem doidona da cidade, aquele que fala “caraca, The Bugs , quando é que cês vão voltar?”, até uns anos atrás ainda colava um maluco falando isso.

E como surgiu o Supercordas?

De certa forma foi uma banda inventada. Eu conheci o Régis na faculdade, o cara com uma cara de louco e camisa do Spacemen 3, e fui falar com ele. O Régis foi o cara que me apresentou pra esse mundo no Rio, de todas essas pessoas com as quais a gente tá envolvido e toca, Digital Ameríndio, Felipe Giraknob (membros do Supercordas). Depois ele virou professor. Foi quando eu meio que inventei essa história de ter uma banda e o [Rodrigo] Lariú ouviu o disco que eu tinha feito, em casa mesmo, e curtiu. Aí veio a Midsummer Madness, fizemos alguns shows, depois o Seres Verdes Ao Redor, que foi maior.

De onde surgiu o Um Futuro Inteiro?

Veio de uma canção chamada “Eugênia”. É uma canção final, quase sempre a possibilidade dos discos se materializa ou se idealiza para mim com a última do disco. Foi bastante rápido até: pro quanto isso costuma demorar, a composição foi rápida, a gravação foi coisa de alguns meses. Pra mim é rápido, porque eu demoro bastante, tenho demorado nos últimos tempos. Outros discos eu fiz em um mês mesmo, os primeiros, na fase brejeira.



Mas a decisão de transformar a “Eugênia” num álbum veio de onde? Vamos por partes, como nasceu ”Eugênia”?

Como a maioria das letras nasceu, sentado num ônibus, eu acho, em movimento, de ônibus, ou de bicicleta, ou andando, sempre em movimento.

Você teve a ideia de “Eugênia” e daí você foi fazer as outras músicas?

Ela ficou lá, a estrutura provavelmente já tinha terminado, mas as estrofes todas não. “Esse Trem Não Improvisa” foi a primeira que eu gravei, foi a última que eu tinha feito, uns poucos dias antes da minha plaquinha USB chegar pelo correio. Essa faixa foi uma das exceções às regras do processo. Eu rabisquei a letra, claro que enquanto isso eu já via mais ou menos uma melodia pra ela, mas eu peguei um bloquinho e comecei a escrever sentado. Achei careta – a letra, a história, a canção, “caramba, tô um pouco country-rock, reto demais”. Acho que foi um delírio da minha cabeça, logo eu mostrei pro Felipe o primeiro mix que eu fiz e ele ficou ensandecido, achou lindo. Desde que eu escrevi a canção eu pensei, ou vai abrir ou não vai para o disco.

Mas por que a “Eugênia” te impulsionou a fazer o disco?

Era uma canção muito boa, eu realmente achei que ela tinha um brilho novo, suficiente para ser uma peça central, a ideia, o vocabulário. Eu gostei muito de ter usado aquelas palavras.

Do “maneiro” à “imanência”?

Isso, do “maneiro” à “imanência”, “vontade de perder”. Eu não sei se era exatamente o que eu queria expressar, mas depois acabou sendo a expressão do que aconteceu, na verdade. É por isso que ela mesma diz que “o amor transmuta o real, revolucionário enquanto o pulso das canções”. Ela era grande o suficiente pra eu centrar tudo nela, então por isso que eu digo que o disco veio da canção.



“Eugênia” é o nome de alguém?

É o nome de alguém, mas não é o nome de alguém, toda história é justamente transformar todas essas fumaças da vida em uma coisa construída. Eu tenho uma grande dificuldade de imaginar, em ter as coisas construídas com essa fumaça da vida...

“Tudo o que é sólido desmancha no ar”?

E nesse caso, o que a princípio se desmancha no ar é o que há de sólido. Sólidas para mim são as canções.

Mas não é um disco que começa com uma perda?

É, porque eu vejo o processo de uma forma que não se encaixa na linearidade do tempo vivido, então se você me fala em começo e em fim, com esse disco, ele começa no fim, termina pelo início e no meio disso você tem um grande caos de experiências. Tanto experiências que você vive aqui na fumaça do mundo que se vê e que se sente, como na dimensão das construções sólidas, que são as canções.

Você pensou num equilíbrio entre a inspiração emocional e o formalismo experimental que queira ter?

Sim, principalmente eu penso no desequilíbrio desses dois parâmetros, mas não deixa de ser um processo harmônico no fim. É muito claro e eu não vejo nenhum problema com o fato de que existe um abismo quase inconsciente de onde a ideia vem, de onde toma uma forma, vira uma frase, uma célula. E aí vem parte do formalismo, vem a parte do processo em que você lapida aquilo, coloca, organiza minimamente o sentido geral daquilo. Como no caso de “Eugênia”, “maneiro mesmo é estar”: “tá, tudo bem, isso é uma canção, ela vai ter dez minutos, ela vai fechar um disco, mas ‘maneiro mesmo é estar’ o quê?

“Vertigem de Uma Festa Interestelar” foi composta antes do resto do disco, é isso?

Foi composta antes, no dia seguinte de uma festa muito louca. Duas músicas nesse disco, essa e “Antena A Mirar O Coração de Júpiter”, foram compostas no dia seguinte de uma festa, duas festas muito intensas e memoráveis. A de “Vertigem” é a mais antiga, foi depois de um show da Supercordas, da Filme e do Subterrâneos, lá no Rio, na casa de uma amiga. Foi uma festa louca, do tipo que você acorda e tem um quadro dentro da privada e você entra na sala e tem um cara de 40 anos molhado, de short no sofá e chorando porque um amigo dele tá tocando “Jealous Guy” no piano, esse tipo de festa, às 10 da manhã (risos). Sendo que esse amigo é o maior compositor vivo da música brasileira (risos). “Vertigem” foi concebida desse jeito, depois ela foi fechada. Pra ser sincero, acho que talvez a melhor estrofe dessa música é a última: “Mas só chove aqui por dentro/ Uma goteira no lugar/ Onde a gente imaginava um dia se entregar”. É o tipo da coisa que eu digo, “ah tá, esse som é um pouco brega, mas foda-se, é lindo”. Depois que eu botei isso transformei a canção toda, o sentido dela, fui trocando algumas palavras às vezes, às vezes fazendo uma estrofe toda. A primeira estrofe é a original, “eu me perco pela casa/ Sempre com a máquina nas mãos/ Os dedos quase em brasa e o olhos comendo o chão”. Isso é a descrição da festa.

Como você escolheu os formatos musicais pelos quais você passou no disco? Porque, por exemplo, “Vertigem” é tipo psicodelia inglesa dos anos 90, coisa que esperaria do Primal Scream.

Isso é uma das diferenças desse disco em relação a todo o resto. Como eu gostei de fazer coisas sintetizadas – “Vôo de Margarida”, “Vertigem”, que tem um arpejo de sintetizador, de moog –, soa modernoso mesmo. Isso foi bem forte no disco, apesar de talvez não ser uma constante, eu gostei de soar dançante, é uma canção dançante. Eu não sou especialista em canções dançantes, fiz muito poucas canções dançantes. O Giraknob zoa comigo, diz que eu não gosto de nada com mais de 110 bpms.



“Voo de Margarida” chama a atenção, você já falou que esse é o disco menos rural que já compôs. A música começa com um elevador...

Vem de viver a urbe há 13 anos. Eu não quero ficar fazendo um som que seja associado à mesma coisa: “ah, eles são meio que os hippies que tomam chá de cogumelo na roça, cresceram em Paraty, frequentam Visconde de Mauá” e pfff. Não é só isso, isso é um pedacinho. A gente tem não só a urbe carioca que eu habito, mas a gente teve um contato com São Paulo nos últimos 5 anos muito grande, muito intenso. Com as pessoas, com a forma como a gente pensa. Estou falando do Supercordas mesmo, acho que a gente curte mais a cidade hoje em dia. Na convivência com o Giraknob, por exemplo, que é um ser completamente urbano, ele vira e olha pro Seres Verdes e fala, “esse papo de roça, humpf”. Ele acha legal: “é ah, ele fez um disco sobre a tristeza do Jeca” (risos). Mas ele é um cara urbanoide, a parada dele é cheirar fumaça de óleo diesel e a gente absorveu isso.

Fiquei pensando em "Antena a Mirar No Coração de Júpiter". Você já tinha composto algo próximo do samba?

Tem uma canção, de vez em quando, em flertes muito esporádicos, assim, mas tem uma canção do Supercordas que é “O Céu Que Você Vê”, que é uma bossa nova meio eletrônica, lo-fizona. É engraçado isso, elas sempre foram muito bem recebidas por pessoas que não necessariamente, pessoas que não são como você, ou como o Felipe, pessoas musicalmente afins, que entendem de música. As pessoas da minha família, por exemplo, adoraram essa música do Supercordas, as pessoas em geral adoraram “Antena A Mirar No Coração De Júpiter”, acham que é uma das melhores músicas do disco. Engraçado como sempre cola o samba. Tem uma outra canção que se chama “Não Sei Se Eu Posso Ir Caçar Rã”, que a gente nunca gravou, gravou num programa, o “Música de Bolso”, que é uma marchinha, bem no sentido de marcha do samba (imita o som), lenta, mas bem marchinha. Às vezes aparece umas, mas eu não tenho tanto contato com o samba, tenho contato com muitos artistas pop e clássicos que flertaram com o samba, claro, mas com o samba, samba, assim, eu tenho muito pouco contato.



E por que você decidiu fazer ela desse jeito? Ela veio assim?

Não, essa canção veio de uma forma que nenhuma outra canção no disco veio. Ela foi uma exceção da regra do processo, eu escrevi primeiro um texto, era uma prosa aquilo, não era uma canção: “é fundamental deixar as outras pessoas arrancarem pedaços meus e enterrarem no fundo dos quintais da mente, ou injetarem os olhos neles, ungirem tudo com manteiga de garrafa, oferecerem ao demônio criador particular que coexiste ali, com uma idéia sobre a revolução de 30 ”. Um cara falando. E como você musica um cara falando? Uma das melhores formas eu acho é aquela coisa meio Novos Baianos, meio Digital Ameríndio. É a canção favorita do Digital Ameríndio, ele disse que eu nunca escrevi uma música tão bonita e nem nunca vou escrever (risos). É bem uma prosa musicada, é muito bom fazer uma prosa musicada naquele sentido bem tropicalista. “Se eu não tivesse com afta até faria uma serenata pra ela. Que veio cair de morar em cima da minha janela”. Acabou tomando essa cara de Novos Baianos.

O disco é tão metafísico, quanto ele é metalinguístico.

Metalinguístico, exatamente. Pra tudo isso você pode jogar uma dose de metalinguagem, mesmo que não seja uma característica que te salta à vista, assim, pra tudo você tem um tanto de metalinguagem. “Arranquem pedaços meus”, isso tem a ver com ser um cancionista, as pessoas te ouvirem, e as pessoas te fruírem e gostarem do que você faz. Quando eu penso nisso eu não quero ser inteiro, quero que as pessoas arranquem mesmo, é o que eu mais quero, pra me deixar feliz, contente, derretendo contente.

Você vê um legado para o seu trabalho?

Eu sempre soube, independentemente de isso ser pequeno em relação ao que vá ser mesmo, que daqui a 15 anos ou 20 anos vai ter um cara que vai pegar e ouvir esse disco e vai gostar muito. Eu tenho certeza disso porque eu me entendo nesse cara do futuro. Acho que só isso que eu consigo projetar e imaginar, então é um legado que é só o do trabalho mesmo, só o da obra. Eu não sei se a gente vai estar jogando televisões pela janela daqui a 5 anos, eu acho que não porque as bandas de rock não fazem mais isso (risos). Se a gente vai conseguir viver disso eu não tenho a menor ideia, mas a gente vai continuar trabalhando por isso.

Saiba mais:
bonifrate.bandcamp.com

tags:
 um futuro inteiro, bonifrate

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