O bairro Sítio Bom Jesus, em São Bernardo do Campo, amanheceu certo dia em outubro contemplando um painel de 191 metros de extensão, assinado por cinco artistas da região do ABCD - clique aqui para ver a imagem completa. Não que o painel houvesse surpreendido os moradores do local, pelo contrário: inúmeros acompanharam de perto o mês inteiro de trabalho de Daniel Melim, Sapo, Cena7, B-47 e Emol, conversando com os muralistas e até influenciando o trabalho deles.
O Mural 191, como o projeto foi batizado, é uma dessas felizes convergências entre comunidade, governo loca e artistas que rende frutos artisticamente relevantes e ao mesmo tempo realmente integrados ao cotidiano do local onde foi realizado. Para explicar melhor como isso foi possível, conversamos com três artistas que participaram do projeto, falando sobre diálogo, inspirações e a vida em comunidade. Aproveite e acesse o site oficial do projeto, para ver mais imagens, e o canal no Vimeo, para assistir alguns vídeos com making ofs.
191 Metros de Arte from Urban Noise on Vimeo.
Como nasceu a ideia do projeto?Daniel Melim . A ideia surgiu através de um convite da Secretaria de Habitação de São Bernardo do Campo, para que fosse criado um grande mural na região do Sitio Bom Jesus, onde a prefeitura esta realizando diversas ações para melhor a infraestrutura do local. A ideia inicial era que criasse uma pintura na extensão da parte linear às margens do córrego Alvarenga, e a partir disso eu fui organizando o projeto e convidando artistas que pudessem colaborar com esse propósito.
Todos os artistas são de São Bernardo do Campo? Alguém tinha alguma relação mais pessoal com essa comunidade?Daniel Melim . Os artistas convidados são da região do ABCD, sendo eu, o Sapo e o Cena7 de São Bernardo, o B-47 de Santo André e o Emol de Diadema.
Cena7 . Eu cresci num bairro vizinho ao do mural, na verdade aqui é um complexo de várias vilas... Nunca se sabe direito onde acaba uma e começa outra. Eu explico um pouco melhor no vídeo abaixo.
Opressão nas Metrópoles Versus II from Urban Noise on Vimeo.
Quanto foi gasto de tinta no total? O projeto contou com apoio da iniciativa pública ou privada?Daniel Melim . Foram gastos mais de 400 litros de tinta latex e um pouco mais de 500 latas de spray. Tivemos apoio Secretaria de Habitação do município, que entendeu que é preciso investir em políticas públicas de habitação, mas também é preciso integrá-las com um local de convívio mais humano.
Qual é a temática do seu mural?Daniel Melim . No meu mural que tentei retratar um pouco da questão dos trabalhadores da região. Tanto o trabalhador rural como os operários, passando pelas manifestações e expressões dessa classe, já que aquela região teve inicio como um grande sitio, que com o tempo foi sendo loteado e ocupado por empresas. Além disso, toda a região do ABC é reconhecida pelo movimento trabalhista.
Trabalhadores do ABC from Urban Noise on Vimeo.
Emol . Visitei a comunidade por uma semana antes de iniciar a pintura, e a partir de conversas com moradores fui construindo a ideia do que seria o mural. Nessas conversas o assunto recorrente era o passado vivido em outros estados (a grande maioria deles é de Minas Gerais e de estados do Nordeste), a migração para SP buscando melhores condições de vida e esta própria condição difícil que enfrentaram por aqui: as chuvas que causavam alagamentos e o trabalho para manter o básico, como alimentação e moradia precária.
Partindo disso pensei uma síntese do que seriam, historicamente, as relações de poder às quais as pessoas destas regiões se submetem a partir do sistema de produção e relação econômica, sua condição e em troca do que se sujeitam a estas relações. Estes foram fatores determinantes na escolha dos elementos; da cor predominante do fundo às alegorias, somado às variações que a arquitetura do local oferecia, com suas janelas, recuos de parede, texturas e altura variada que influenciaram em alguns aspectos de composição. Ou seja, a temática do mural é a própria história dos moradores locais que é bem comum em diversas outras favelas e periferias, em especial do sudeste brasileiro.
Baseado em Histórias Reais from Urban Noise on Vimeo.
Como foi o processo todo, quanto tempo levou do início à finalização?Daniel Melim . Foi tudo bem difícil, foram uns 30 dias de trabalho. Era a primeira vez que acontece esse tipo de projeto na região, a infraestrutura era complicada e os muros estavam todos sem acabamento, mas o proposito de todos os envolvidos foi maior que as dificuldades e conseguimos driblar isso e ter um resultado incrível.
Rolou algum tipo de interação com membros da comunidade antes do início das pinturas?Cena7 . Sim, a todo momento: é um bairro de amigos e amigas e os moradores sempre vinham perto para conversar sobre o que estávamos fazendo. No meu caso uma moradora até me emprestou o filme
Kiriku e a Feiticeira, ela disse que percebeu uma relação entre o meu trabalho e o desenho animado.
Daniel Melim . Antes conheci alguns líderes comunitários e algumas pessoas do bairro, mas a interação mesmo rolou quando o projeto estava em andamento. Conseguimos criar vínculos com os moradores, conversávamos bastante, almocei da casa de uma família do bairro em certo dia, e assim consegui enteder um pouco mais do local, das suas dificuldades e do seu lado positivo também. Cada artista teve um tipo de interação diferente nesse processo, mas que de alguma forma houve esse contato, que foi muito positivo para o projeto de forma geral.
Cabeças Explosivas Version II from Urban Noise on Vimeo.
Como a comunidade recebeu os trabalhos finais? Rolou alguma história marcante?Daniel Melim . Pelo que percebi, a comunidade curtiu muito, com 30 dias lá direto ouvimos muitas coisas. Desde crianças refletindo sobre o desenho, quanto adultos contando que tinham sonhado com tal trabalho. Visualmente o local é outro, e acredito também que esse visual ajudou um pouco na autoestima dos moradores.
Emol . Ouvi diversos comentários de pessoas diferentes como "Isto é uma crítica à igreja e a relação das pessoas com o dinheiro, né?”, "Aquela ali é a padroeira dos passarinhos" e "Eu gostei de tudo porque a arte é boa pra fazer a gente pensar melhor".
Raramente vemos iniciativas como essa voltadas às comunidades. Isso fez diferença pra vocês na hora de colocar energia e se doar pro projeto?Daniel Melim . Qualquer tipo de apoio às comunidades é difícil, por isso além de convidar pessoas que conseguiriam desenvolver um trabalho nessas dimensões, minha preocupação era também convidar pessoas que estivessem dispostas a fazer algo em prol aos moradores. Tenho certeza que todos se esforçaram ao máximo para criar um painel para essa comunidade.
Emol . Eu nasci e fui criado em uma comunidade com estas mesmas características: barraco de madeira, enxurradas e alagamentos, muita gente em pouco espaço. Sou filho de imigrantes mineiros que trabalharam em metalúrgicas e como empregada doméstica. Então quando realizo projetos onde vivo ou para pessoas à minha volta já estou tendo uma iniciativa voltada à comunidade. Pra mim é comum esta energia e doação, está em tudo que nos propomos a fazer, pois nosso estilo de vida nos ensinou assim. O fato de a cultura local ser a mesma na qual me criei fez com que eu me sentisse mais à vontade ainda para ser eu mesmo, afinal o projeto era para nós.