Morreu Millôr Fernandes. Quem?

O choque de gerações por trás da repercussão da morte de Millôr Fernandes

POR MATEUS POTUMATI
publicado em 30.03.2012 09:43  | última atualização 30.03.2012 15:38

Millôr Fernandes e sua autotipografia POR Reprodução / Desiderata

Como você provavelmente já sabe, morreu na noite desta terça 27 o escritor, jornalista, chargista, tradutor e tantos outros istas e ores Millôr Fernandes. Se, no entanto, você é dos que ainda não sabiam da notícia, faziam uma leve ideia de quem era o fera ou o desconheciam completamente, não se espante: muita gente está no mesmo barco que você.

Quem?

Apesar de ter estado meio monotemático nos últimos anos, a importância de Millôr no comentarismo político (por meio de charges ou não) e no próprio jornalismo brasileiro a partir da ditadura militar é inegável – o que não quer dizer que seus herdeiros assumidos sejam sempre um orgulho à sua recém-inaugurada memória.

Não o conheci pessoalmente, mas ele aparentava além disso ter sido um tremendo boa-praça e uma conversa de boteco épica. Na manhã da quarta-feira 28, logo que a notícia começou a circular oficialmente, choveram nas redes manifestações respeitosas e saudosas de uma legião de fãs, especialmente jornalistas e cartunistas influenciados pelo “Guru do Méier”. O Millôr, malandro que era, já tinha cunhado uma frase pra situação: “A ocasião em que a inteligência do homem mais cresce, sua bondade alcança limites insuspeitados e seu caráter uma pureza inimaginável é nas primeiras 24 horas depois da sua morte.” (*) Mas, se a sua timeline não é tão tomada por esses tipos quanto a minha, você pode ter visto outra história: muita gente, especialmente os mais jovens, não entendeu nada do que estava acontecendo.

Inspirado no fenômeno recente “Quem É Paul McCartney?” (e seu irmão caçula, “Quem É Bon Iver?”), que causou um choque de gerações no Twitter após a cerimônia do Grammy 2012, nosso editor online Amauri Gonzo fez uma busca no Twitter por parâmetros como “Quem é” e “Não sei quem é”, associados a Millôr Fernandes. Era de se esperar que um escritor de 88 anos, que gostava da ideia de ser influente, mas abominava a de se imaginar celebridade, fosse um ilustre desconhecido para número considerável de jovens. Como esperado, havia muito mais desinformados do que supunha a nossa vã timeline.  



Quem é Millôr?, o Tumblr

Após refletirmos sobre, de um lado, o réquiem ao escritor, e de outro o seu completo anonimato, resolvemos fazer um experimento. Nasceu então o Tumblr Quem É Millôr Fernandes?. (Imaginamos que alguém poderia achar desrespeitoso ou inoportuno/oportunista, mas, sabendo que o escritor teve uma vida feliz e duradoura, e fantasiando que ele teria simpatizado com o senso de humor da história, seguimos em frente.) O link circulou pelas redes, acompanhado de doses variadas de bullying geracional e social, no bom e velho esquema “brasileiro não tem cultura”, e seu irmão mais novo e bravinho, “viva a inclusão digital”. À tarde, já estava em sites como Estadão, Superinteressante e YouPix, e nesta quinta, 29, já ultrapassava 10 mil visitas.

Narciso acha feio o que não é espelho, já dizia uma música da época do Pasquim, e isso parece valer cada vez mais, tanto para o adolescente que berra “taí uma pessoa que morre e vira gênio do nada” como para o trintão que, tal qual a patrulha do “chhh” no cinema, fica revoltado com algo assim. Quero me deter nessa geração entre 30 e 40, na qual me incluo e sobre a qual, portanto, posso falar mais sem dizer tanta besteira. Nós crescemos tendo que lidar com várias mudanças drásticas: o fim da ditadura que o Millôr combateu (e a guinada à direita de tantos colegas e pupilos dele), o fim do comunismo, o impeachment de um presidente, a virada do cruzeiro pra URV e daí pro real, do século XX pro XXI, do analógico pro digital. Além disso, experimentamos um prolongamento da adolescência inédito na história humana, que nos leva a ter que administrar não só a síndrome de Narciso, mas duas outras bombas: a certeza (adolescente) de que o mundo se circunscreve ao limite das nossas referências e a inexorável perda de relevância trazida pelo avançar da vida adulta. Juntos, e não monitorados, Narciso, adolescência tardia e envelhecimento criam a figura pitoresca do Tiozão Saudosista – aquele que quando nós tínhamos 15, 17 anos vivia falando do quanto Yes era foda, e que rádio boa mesmo era a Kiss FM (Update: o Bianchini me fez acordar para o fato de que não existia Kiss FM quando eu tinha 17 anos. A emissora foi fundada em 2000, quando eu já estava nos 24. E isso só mostra o quanto esse papo de adolescente tardio é realmente sério).

Juntos, e não monitorados, Narciso, adolescência tardia e envelhecimento criam a figura pitoresca do Tiozão Saudosista – aquele que quando nós tínhamos 15, 17 anos vivia falando do quanto Yes era foda, e que rádio boa mesmo era a Kiss FM.

Tento me colocar no lugar de um moleque de 15 anos que de repente teve sua timeline invadida pelo Millôr. Em 1991, quando eu tinha essa idade, a Wikipédia me diz que morreu gente como Paulo Mendes Campos, Miles Davis, Johnny Thunders e Tarso de Castro – este, por sinal, colega de Pasquim do Millôr. A morte do Tarso de Castro, que era bem menos famoso do que o Millôr, sem dúvida nenhuma passou batida por mim. Do Miles eu acho que já tinha ouvido falar, mas não passava disso, e o Johnny Thunders eu só conheceria dali a alguns anos. Dos quatro, o único que eu conhecia bem, então, era o Paulo Mendes Campos, cujas crônicas da coleção Para Gostar de Ler eu tinha lido de cabo a rabo anos antes. Mas tenho minhas dúvidas se fiquei sabendo da morte dele à época – e, se fiquei, certamente não perdi meu sono com isso. Até aqui, portanto, um moleque de 15 anos em 2012, armado de Twitter e Facebook, que ficou sabendo da morte de um tal de Millôr por acidente, está mais bem informado do que eu em 1991.


Anti-metalinguagem: piada à Millôr por alguém que não conhece Millôr

Outro fato: se eu conhecia Paulo Mendes Campos em 91, era porque seus livros circulavam em bibliotecas escolares e eram indicados por professores (no meu caso, com um reforço da grande Dona Hilda, minha mãe). Meu amigo Alexandre Boide, tradutor, colaborador da Soma e um dos meus analistas de mundo preferidos, fez o seguinte comentário a respeito: “Não dá pra culpar a molecada por não saber quem era o Millôr. Fazia décadas que não se falava no cara, ele não está nos livros didáticos, não está na lista do vestibular, tem uma obra meio dispersa no mercado editorial e também não era visto como um cara do primeiríssimo time (quem sabe agora, depois de morto, passe a ser). Sempre foi mais identificado como homem de imprensa e, se hoje em dia o nome dele não significa nada pras gerações mais novas, é muito porque a própria imprensa estava cagando pra ele ultimamente. Agora, soltam a notícia da morte como uma grande comoção.”

Ele também lembra, oportunamente, da pequena repercussão que teve a série de títulos do autor lançada pela Desiderata nos últimos anos. “Se o cara é essa sumidade que todo mundo deve conhecer, o lançamento de uma retrospectiva da obra dele, ainda em vida, deveria ser considerado um evento importante, mas ninguém deu bola. Aí o cara morre e quem nunca ouviu falar dele é tachado de imbecil. Isso não faz muito sentido.”

“Que é que tem não conhecer o cara?”, segue o meu amigo. “Mas esse fato está sendo usado pelos tontos de plantão para afirmar que o brasileiro é um povo ignorante, sem memória, sem cultura, que a educação pública é uma merda, tudo isso baseado em... nada.”

Eu particularmente acho a comoção em torno da morte natural, porque o Millôr tinha um séquito de fãs e boa parte desses caras ocupam lugares importantes na mídia. O que me faz rir, insisto, é a tendência que certas pessoas (inclusive na imprensa) têm de achar que o mundo se resume, ou deveria se resumir, aos limites do seu gosto e conhecimento. OK, isso é completamente esperado também, e o que é o jornalismo cultural senão dizer que o meu gosto é melhor do que o seu e blablablá. Mas visto assim, escancarado na internet, o bullying geracional só aumenta a caricatura do tiozão saudosista tentando convencer a molecada a ouvir Kiss FM no grito. A questão é que a molecada não está nem aí pra você, nem tem que estar. Pior: você não é mais tão jovem assim. “Que é que tem não conhecer o cara?”, segue o meu amigo. “Mas esse fato está sendo usado pelos tontos de plantão para afirmar que o brasileiro é um povo ignorante, sem memória, sem cultura, que a educação pública é uma merda, tudo isso baseado em... nada.”

Meninos da Bolha

Se o mundo contemporâneo e sua orientação individualista e privatista já reforçava essa sensação de isolamento, a bolha criada pelas redes sociais a aumentou exponencialmente. O fato de mantermos contatos com amigos e outros mascara um dado do qual pouca gente se dá conta: o “social” é um pretexto utilizado pelas redes para fechar os usuários em suas áreas de interesse e, com isso, poder vender anúncios mais precisos. No caso do Facebook, é um caminho sem volta: a sua timeline mostrará cada vez menos opiniões diferentes da sua. Aliás, todo mundo deveria ver o vídeo abaixo:

Eli Pariser 2011 from TED & Tira on Vimeo.



O Google também vai nesse rumo (esses dias fiquei impressionado ao ver como o resultado de busca no meu computador foi diferente do de um colega de trabalho).

No Twitter, essa “filtragem de interesses” ainda é feita exclusivamente pelo usuário, ao escolher quem vai seguir. Mas a busca da ferramenta ainda mantém uma pureza reveladora e quase sempre incômoda, como acabamos de ver. Não desejo para ninguém viver no meio da artilharia troll da internet, mas buscar opiniões diferentes da sua é um exercício saudável de se fazer de vez em quando.

Não sei o que o Millôr achava das redes sociais (o Twitter dele era mais um feed para as notícias do seu site), mas ele disse pelo menos duas coisas que cabem aqui:

1) Pra molecada revoltada com a comoção em torno do Millôr: “Com muita sabedoria, estudando muito, pensando muito, procurando compreender tudo e todos, um homem consegue, depois de mais ou menos quarenta anos de vida, aprender a ficar calado.” (*)

2) Pros tiozões revoltados com os desinformados: “Não é que com a idade você aprenda muitas coisas; mas você aprende a ocultar melhor o que ignora.” (*)


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(*) Todas as aspas de Millôr Fernandes neste texto foram encontradas com o auxílio da ferramenta de busca Google.

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