Mulheres Barbadas . Duas cores a quatro mãos

Duo formado por Henrique Lima e Julio Zukerman participa do festival Rojo Nova Cultura Contemporânea com ilustração interativa num cubo de vidro. Confira a entrevista

POR STEFANIE GASPAR
publicado em 04.10.2011 15:02  | última atualização 04.10.2011 17:04

Mulheres Barbadas POR Fernando Martins Ferreira

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No espaço aberto da Cinemateca Brasileira, na Vila Mariana, um cubo de vidro é repintado a partir de linhas abstratas traçadas em preto e branco. O trabalho, minucioso, iniciou por volta das 11h – e, às 17h, está longe de terminar. Henrique Lima e Julio Zukerman olhavam para o vidro tentando decifrar qual seria o próximo passo, em uma preparação para a apresentação da dupla como uma das atrações nacionais do festival Rojo Nova Cultura Contemporânea.

Assinando sob o pseudônimo Mulheres Barbadas, os ilustradores começaram sua carreira por volta de 2006, criando desenhos monocromáticos a partir de determinadas situações e personagens. Os trabalhos, disponíveis on-line, podem ser impressos por qualquer um e transformados em lambe-lambes e pôsteres. Depois de participar das primeiras edições do festival Nova Cultura Contemporânea, o Mulheres Barbadas retorna este ano para uma performance em sintonia com o público – enquanto pintam a parte de fora do cubo, o público pode acompanhar os rabiscos ou criar desenhos completamente diferentes com canetas coloridas do lado de dentro. Desta forma, os traços dos artistas e do público irão se misturar e influenciar uns aos outros.

Em entrevista para a Soma, os ilustradores falaram sobre a proposta da curadoria de mudar a relação do público com a arte e sobre outras experiências de interação ao vivo com a plateia.

O processo criativo de vocês é sempre conjunto, com os dois desenhando simultaneamente a partir do mesmo estilo. Como funciona essa dinâmica?
MB - Quando desenhávamos separados os nossos traços já eram meio parecidos. Não tanto quanto hoje, porque já temos um ritmo e uma rotina de desenhar juntos, mas era similar. Quando pegamos um projeto grande, por exemplo, cada um começa um pedaço na sua casa e depois a gente troca. Quando a gente trabalhava em agência e precisava desenhar escondido pro chefe não pegar, era normal um ir trampando e o outro desenhando, daí depois a gente trocava. A ideia é que os estilos sejam tão misturados que no final não seja possível distinguir quem fez o quê.

E qual a diferença do que vocês fazem normalmente para a proposta do Nova Cultura Contemporânea?
Normalmente o nosso trabalho é bem figurativo, com personagens e objetos. Mas aqui pro Nova o desafio é fugir do figurativo e apostar no abstrato. Não existe nada nesse nosso trabalho aqui que queira representar alguma coisa. Normalmente, os nossos trabalhos amontoam objetos, personagens, e aqui no festival a ideia é mostrar movimento, ondas não específicas. Aqui é outro mundo, no qual a intenção é não conseguir identificar nada mesmo.

É bom ter mais liberdade na hora de desenhar, sem precisar se preocupar tanto com estruturas e narrativas?
A gente gosta, mas na real está longe de ser algo mais livre. Pra gente, o natural é desenhar a partir de representações, de coisas concretas, como objetos, personagens, bichos... aqui não vale nada disso, é um esforço, é sair da zona de conforto. Para esta obra do cubo, nós inventamos de mostrar pequenas explosões nos nossos desenhos. Mas fora esse conceito, o desenho em si é difícil dizer onde começou e onde termina – agora, meio que já virou um todo indefinível.

O curador do Nova, David Quiles Guilló, afirmou que a proposta do festival é tirar a arte do esquema de paredes brancas e silêncio, trazendo de fato a arte para o cotidiano das pessoas. Como vai acontecer essa interação com o público na performance de vocês?
Esse tipo de interação é difícil. Tanto que o que eles propuseram para a gente era o público interferindo diretamente nos nossos desenhos, pegando uma caneta e pintando diretamente no meio do que estamos fazendo. Essa proposta a gente teve que vetar porque achamos que não ia dar certo, daí no lugar disso decidimos que seria legal se nós pintassemos por fora e o público pudesse fazer a mesma coisa do lado de dentro do cubo. A ideia é que as pessoas façam o que quiserem em cima dos nossos desenhos, mas de uma maneira mais indireta. Daí o que as pessoas desenharem do lado de dentro vai interferir no nosso desenho tambem. Mas mesmo assim não temos controle mesmo se isso vai dar certo e de que forma as pessoas no fim vão acabar participando. É sempre algo fora do nosso controle.

Vocês acham que é possível de fato trazer o público para dentro da obra, promovendo uma participação ativa de cada pessoa?
No nosso caso o observar já acaba sendo importante. No primeiro Nova, por exemplo, nós passamos uma semana inteira fazendo um desenho, e as pessoas interagiam a cada minuto. Todo mundo queria tirar foto, perguntavam exatamente o que estávamos fazendo, quais materiais estávamos usando, se dava pra todo mundo fazer em casa... e o que a gente acha foda é que daí as pessoas começam a pensar que dá pra fazer um desenho incrível na parede de casa, por exemplo, é só pegar uma caneta e tentar. Muitas famílias conversavam com a gente, interagiam de fato com o que estávamos fazendo. Então achamos possível sim. Mais do que ver a obra pronta, por exemplo, acho que é ver esse processo inteiro que faz com que as pessoas fiquem perto do nosso trabalho.

Durante a apresentação do evento, a curadoria apontou que um dos maiores problemas da arte contemporânea é a dificuldade que um artista jovem enfrenta para chegar ao circuito das grandes galerias e exposições. Vocês sentem essa dificuldade?
Exatamente por não dependermos tanto de grandes exposições, mostrando muito o nosso trabalho pela web e tendo um feedback imediato das pessoas, não sofremos com esse tipo de problema. Acho que isso rola também poque sempre disponibilizamos nossos desenhos em alta resolução para pessoas fazerem o que quiserem com nossas obras: usarem em casa, como moldura pra tatuagem, para colocar na parede, em luminárias... quando fizemos essa exposição em que desenhamos durante uma semana sem parar, ficávamos online o tempo todo e as pessoas aproveitavam para sugerir elementos para colocarmos no nosso desenho. Então o nosso relacionamento com esse circuito de exposições acaba sendo outro, porque o nosso processo criativo passa mais por essa interação digital com as pessoas.

O Mulheres Barbadas repete sua apresentação no festival Nova Cultura Contemporânea no dia 29 de outubro a partir das 18h.

tags:
 nova cultura contemporânea, mulheres barbadas

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