Caravaggio, pintura de fato

MASP apresenta exposição inédita do mestre italiano no chiaroscuro e seus seguidores

POR TIAGO MESQUITA
publicado em 23.07.2012 11:31  | última atualização 23.07.2012 20:50

Detalhe de "Medusa Murtola", obra de Caravaggio POR Reprodução

Em 1592, com pouco mais de vinte anos, Michelangelo Merisi chegou em Roma com uma mão na frente e outra atrás. Poucos diriam que aquele rebelde, profano e violento, conhecido como Caravaggio, se tornaria um dos artistas de maior prestígio junto ao clero e a corte dos Estados do Papa. A vida dele já daria um romance com todas as emoções das melhores tragédias. Viveu literalmente entre a cruz e a espada. Era devoto, mas bissexual, boêmio e extremamente violento. Assassinou um homem, teve malária, participou de brigas sangrentas. Além disso, na última década de sua existência, viveu como um fugitivo. Mas, foi ele que transformou o gosto e o modo de traduzir visualmente a religiosidade católica entre o século XVI e o século XVII.

No período, a arte romana ainda se orgulhava dos feitos dos artistas conhecidos maneiristas como Jacopo Pontormo e Rosso Fiorentino. As discussões em torno da arte se davam em torno de como trabalhar o espaço perspectivo, onde os artistas incluíam pequenas ousadias, os chamados caprichos. Era uma arte do efeito, da imaginação, da elaboração fantasiosa dos temas.

Nada mais distante dos trabalhos de juventude de Caravaggio. Suas pinturas evitam qualquer idealização. As perspectivas são minúsculas e as figuras parecem ocupar um espaço restrito. Tudo parecia excessivamente próximo. Era uma arte de uma representação direta.

Caravaggio vinha de Milão. Embora tratasse a arte como um ofício culto, formou-se em uma tradição periférica, distante dos debates de Roma ou Veneza. Criou uma pintura mais atenta aos contrastes simples de luz e sombra do que ao desenho sofisticado de Rafael e dos rafaelitas. Para um gosto tradicional, a sua obra parecia pesada. Ele se ocupava de dores e prazeres terrenos, não de uma idealização celestial.

O modo de pintar era mais direto. O artista encenava os seus motivos no ateliê e os pintava, na maioria das vezes, sem desenho preparatório, observando aquele teatro através do espelho. Evitava copiar os grandes mestres do passado, buscando uma forma mais concreta. A falta de composição espacial era visto como vulgar e grosseiro.

Os personagens, frutas, tecidos e objetos ganham presença física. Caravaggio representava temas do dia-a-dia, prazeres menores, prazeres obscenos. Muitas vezes a cor da pele indicava doença. Tudo ganha corpo. As folhas e cascas de frutas ganham cor de ressecamento, envelhecimento, decomposição. A relação entre as pessoas, lugares, tecidos indicam uma tensão erótica. A vida pintada é terrena, corpórea e carnal.

Esse aspecto cru e cruel, direto e violento que seduziu o cardeal Francesco Maria Del Monte. Depois de ver seus Bacos, as cenas de jogo, Del Monte fez de Caravaggio seu protegido. Aquele personagem à margem aproxima-se do centro da cultura católica. É a imagem assustadora e sedutora que interessa àqueles cardeais e o papado. Uma imagem que não embelezava as figuras e não atenuava a sua presença.

Roma vivia um período tenso e violento. Não havia cem anos que o Vaticano perdera o monopólio do cristianismo ocidental, com o início da reforma protestante. O catolicismo torna-se uma cultura da persuasão, do convencimento. Nas telas de Caravaggio, milagres e martírios dos santos e de Cristo parecem mais próximos dos fiéis. Como se o artista não tentasse colocar espírito na matéria, mas carne na espiritualidade. O crítico italiano Giulio Carlo Argan diz que se a pintura renascentista é de “argumentação tão perfeita que não é necessária a prova dos fatos” na pintura de Caravaggio “os fatos são tão evidentes que não precisam de nenhuma argumentação”. O sagrado nunca foi tão profano quanto na tela em que São Tomé toca na ferida de Jesus.

Ver uma obra do mestre italiano de perto é uma experiência marcante. De 1º de agosto a 30 de setembro, quem visitar o Masp, em São Paulo, terá a oportunidade de apreciar seis obras-primas do pintor e outras 14 telas de artistas diretamente influenciados por ele, como Giovanni Baglione, Leonello Spada e Artemisia Gentileschi. A seleção, feita em renomados museus italianos e em coleções particulares, conta com uma das mais famosas obras de Caravaggio, a Medusa Murtola. É a maior mostra do conturbado gênio italiano que o Brasil já recebeu. Imperdível.

Caravaggio e seus seguidores no MASP

Quando . 1º de agosto a 30 de setembro. De terças-feiras a domingos e feriados, das 11h às 18h. Às quintas-feiras, das 11h às 20h
Onde . Museu de Arte de Arte de São Paulo . Av. Paulista, 1578 - São Paulo / SP
Quanto . R$ 15, com direito à meia-entrada para estudantes. Grátis às terças-feiras e para menores de 10 anos e maiores de 60
Infos . (11) 3251.5644 / masp.art.br

tags:
 MASP, caravaggio, caravaggio e seus seguidores

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