O Portugal moderno e colorido do The Gift

Quarteto de Alcobaça toca em SP e Natal nesta semana, leia entrevista

POR KATIA ABREU
publicado em 16.10.2012 15:03  | última atualização 16.10.2012 17:19

The Gift POR Divulgação / Shervin Lainez

Há quase 10 anos, escrevi um livro-reportagem sobre pop rock português. Quando escolhi este tema para meu trabalho de conclusão do curso de jornalismo, a pergunta que mais ouvi foi: “mas existe isso?”. Parecia absurda aos brasileiros a possibilidade de se produzir algo que não fosse fado em Portugal. Hoje, graças à fabulosa circulação de informação na rede mundial de computadores, a hipótese soa menos estranha. Mas ainda é tímido o consumo de cultura jovem lusa entre nós.

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Há uns 20 anos, quatro amigos começaram uma banda em Alcobaça (cidade ao norte da capital Lisboa). Como muitos artistas de sua geração, cantavam em inglês e faziam um pop eletrônico moderno, denso e um tanto soturno. Algo próximo do que se fazia em Bristol, na mesma época. Então, foi com certo espanto que, num verão do final da década de 90, passeando pela costa portuguesa com a família, ouvi os The Gift (é assim que eles dizem lá, com artigo no plural) no rádio e pensei: “o que é isso que nunca escutei antes?”



Julguei ser algum grupo alternativo inglês ou estadunidense ainda desconhecido por mim. E, fosse hoje a minha descoberta, também assim por acaso, possivelmente teria a mesma reação, mas associando a outras cenas. Se no início ecoava o trip hop, agora poderia estar na prateleira entre um Broken Social Scene e um Grizzly Bear. Universal e diversa, a música do The Gift reflete a inquietação artística de John e Nuno Gonçalves, Miguel Ribeiro e Sónia Tavares.

Após seis discos, todos lançados por sua própria gravadora, a La Folie, o grupo se firmou com um dos principais expoentes da música contemporânea portuguesa e tem inegável papel em propagar uma nova imagem de Portugal através de sua música. Turnês pela Espanha, Estados Unidos e Canadá são parte da agenda do The Gift há já algum tempo. E desbravar o Brasil faz parte dos planos do grupo.



Estiveram por aqui pela primeira vez em 2006, quando coproduzi parte da miniturnê que passou por Recife, Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba. Ano passado, voltaram para tocar no Rock in Rio, com o álbum Explode (o quinto – lançado por aqui pela Coqueiro Verde), e esticaram outras apresentações em Porto Alegre, Rio, São Paulo e Belo Horizonte. Nesta quinta-feira (18), os paulistanos poderão vê-los novamente, no Studio SP Baixo Augusta. Depois, seguem para o festival Mada, estreando em Natal no sábado (20).

Conversei com Nuno, principal compositor do grupo, sobre a relação com o mercado brasileiro, o desafio de mostrar a modernidade de Portugal por aqui, o recente resgate da tradição por jovens músicos portugueses, o que o fado tem de pop e as cores e sons singulares do The Gift.



Vocês estiveram no Brasil pela primeira vez em 2006. E só voltaram para o Rock in Rio, em 2011, e agora para estes shows. Porque demoraram tanto tempo a regressar?

Porque sentimos que devíamos focar energias em Portugal, cimentar a nossa carreira no nosso país, entrarmos definitivamente no top 3 de bandas portuguesas e trabalhar com toda a força o mercado espanhol. E sendo uma banda que pratica desde o início o espírito do it yourself tudo demora o seu tempo. Hoje temos em Espanha um público muito vasto, Portugal conquistado e, agora sim, temos energia e equipe para trabalhar com seriedade o mercado brasileiro. Aos poucos começamos a ter destaque no Brasil e isso só se aumenta com trabalho, shows e palavra atrás de palavra.
 
Como vocês avaliam a relação da banda com o mercado brasileiro? É complicado para um artista português conseguir espaço por aqui?

É complicado, creio eu, pelo preconceito que ainda existe com o português. Portugal é fado para o Brasil, é tristeza, é motivo de gozo para muitas pessoas e custa ainda dizer que Portugal é um país luminoso, iluminado, europeu, moderno, com alma e vontade de ser maior. Passando essa barreira, creio que o trabalho fica mais fácil. Mas respondendo curto à pergunta acho que há um espaço gigante para a música dos The Gift no Brasil.


 
Este ano vocês lançaram o disco Explode no Brasil. Pretendem lançar mais material por aqui? Acham que, em tempos de informação circulando livremente pela internet, ainda é importante editar os álbuns num país para poder construir uma carreira nele?

Acreditamos ainda nos veículos tradicionais de lançamento do disco, tour, promoção, etc. etc. Mas achamos também que hoje em dia o importante é lançar a banda, a sua sonoridade, a sua estética, a sua filosofia mais do que lançar ou promover disco A ou disco B. Os Gift são um todo, são uma voz, um corpo, uma cor, uma imagem, uma filosofia e isso não tem tempo, barreira ou plano de marketing, não tem lista de rádio, não tem indústria... Só tem música, sentimento, depois o público decide se lhe toca dentro ou não. Parece-me bastante poético, mas também bastante honesto.

Falas que os Gift são "uma filosofia". Podes comentar melhor que filosofia é esta?

O nosso modo de estar na vida. A nossa maneira de estar na música. A nossa cabeça, o que pensamos, como pensamos a música. Somos músicos de profissão e isso significa pensar em tudo com muito cuidado. Tudo tem um sentido. Todos os nomes de discos, de musicas, de letras, todos os temas que pensamos. Pensamos muito em quem somos. Não quer dizer que isso que estejamos alienados do mundo que nos rodeia, deixamos é que esse mundo nos entre, seja assimilado pela nossa filosofia de fazer as coisas e depois servimos em canções sentidas, emocionadas, vividas.



Até setembro do ano que vem, está rolando o Ano de Portugal no Brasil (e também o Ano do Brasil em Portugal). Acha que uma ação deste tipo, institucional, pode ajudar a estabelecer um diálogo maior entre artistas e público nos dois países?

Sem dúvida, mas o importante é o pós Ano. Continuar com agentes locais a interação. Parece-me que esta ação pode construir novos públicos, mas depois cada país terá de fazer o seu trabalho, insistindo, promovendo, equacionando relações cada vez mais constantes. Acredito que daqui a 10 anos Brasil em Portugal não seja só axé e futebol. Acredito também que daqui a 10 anos Portugal no Brasil não seja só fado e padarias...
 
Vocês têm falado em algumas entrevistas sobre um "novo Portugal", com propostas artísticas que se distanciam do que geralmente se associa à música portuguesa (basicamente, o fado). Você pode falar um pouco sobre isso? Para quem quiser conhecer esse novo Portugal, o que você indicaria para começar a viagem?

Começaria pela vista desde o avião. Entender que Portugal é a costa europeia mais próxima das Américas e isso definia a viagem. O sol, a luz e a vontade de futuro, com respeito pelas tradições. Costumo dizer que a nova geração de portugueses, da qual eu faço parte, cresceu com dois canais de TV e com discos importados, com programas de autor a altas horas da madrugada, cresceu com pouco cinema, com pouca influencia vinda de fora e isso fez-nos ter sentido crítico, gosto e, sobretudo, soube definir bem o caminho. O novo Portugal tem arte, tem modernidade, tem sorriso, tem inteligência, tem garra, tem humildade, mas também ambição. A viagem começava em Lisboa, mas terminaria no sol que continua ainda a ser o nosso melhor aliado, não pelo calor, mas pela luz...
 
Uma coisa que me chamou a atenção nos últimos anos foi o fato de artistas jovens portugueses começarem a olhar mais para tradição musical, seja em grupos com o Deolinda ou projetos como o Humanos e o Amália Hoje, do qual você fez parte. Tem alguma ideia do que aconteceu para despertar esse interesse na nova geração?

Redescobrir mas, sobretudo, reinterpretar... Lá está o que falava na pergunta anterior. Querer futuro respeitando o passado. Eu peguei em fados de Amália Rodrigues, transformei–os em peças pop e criei um fenômeno impar na indústria portuguesa, pus as novas gerações a cantar os grandes poetas portugueses com toada indie/pop. Pus nos shows avós e netos a cantar e a vibrar pelo mesmo motivo, a música. E isso é lindo: poder saber que o passado pode bem ser o início de um grande e reinterpretado futuro.


 
Ainda sobre o Amália Hoje: foi só um álbum ou há planos de continuidade para o projeto? Conta um pouco de como surgiu a ideia e do que essa experiência trouxe para vocês.

Depois de crescer com a ideia bem punk de que fado era triste e não me interessava, fui convidado pra organizar um projeto de homenagem a Amália Rodrigues, 10 anos depois da sua morte. No início disse que não, porque não me sinto especialmente influenciado pelo fado. Mas depois de me debruçar seriamente sobre toda a carreira da Amália entendi que era muito mais que fado. Era pop. Era um estilo de vida glamouroso com agendas marcadas por tours internacionais. Era marcada por relação estreita com os nomes grandes da música internacional, Frank Sinatra, Jaques Brel, etc. etc. E percebi que o grande compositor de Amália, um senhor chamado Alain Oulman, compunha tudo ao piano e na cabeça dele os Fados eram mais que uma guitarra portuguesa e um xale negro. E foi isso que fiz. Peguei em 10 fados e transformei-os segundo a minha visão. Convidei três vocalistas super distintos: Fernando Ribeiro dos Moonspell, uma banda de heavy metal; Paulo Praça, parte de uma banda electro pop chamada Plaza; e a Sónia Tavares, companheira de anos dos Gift. Juntos, formamos uma banda que são os HOJE e fizemos um disco e uma tour que fez deste projeto um sucesso ímpar e o disco mais vendido de 2009. Na semana que Michel Jackson morreu, um dos poucos países do mundo onde ele não se tornou numero um foi em Portugal, pois lá estávamos nós. Aí se percebe a dimensão do projeto.

O projeto Amália Hoje, então, está concluído? Não haverá continuidade? Pensava um dia poder vê-lo por aqui...


Está concluído, mas não significa que estejemos mortos... Ou seja, na nossa cabeça sempre que nos convidarem para apresentar o projeto fora de Portugal e que as nossas agendas o permitam, creio que temos um enorme prazer em aceitar. Cremos que em breve é possível ver os HOJE no Brasil.

Revisitar a obra da Amália teve alguma influência no aumento de letras em português na obra de vocês?


Não teve influencia nenhuma. A maior influencia talvez tenha sido a idade e perceber que há coisas que são simples de dizer e que me saem apenas e só em português.


 
Olhando a discografia dos Gift, são notáveis as mudanças de estilo. No início, a banda fazia um som mais eletrônico, denso e um tanto soturno... uma estética de certa forma associável ao trip hop; em Explode se vê uma banda mais "colorida"; e, no disco mais recente, Primavera, um trabalho mais intimista... Queria que você falasse um pouco sobre essa alternância de climas. O que move vocês a fazer discos tão diferentes?

Esse é o nosso oxigênio, a ideia de não nos podermos repetir. Hoje em dia é importante manter a motivação em alta quando se está num projeto há quase 20 anos. Ou seja, é preciso experimentar constantemente caminhos novos. A carreira de uma banda não nos dá a oportunidade de gravarmos discos todos os anos e então é importante não repetir a sonoridade. Um escritor só deve escrever quando tem alguma coisa nova pra dizer, e com a nossa música é um pouco assim. Temos referências, eu continuo a ser o compositor, a Sonia a voz, continuamos a ser os mesmos músicos, mas tudo muda. As vidas mudam, os amigos mudam, nascem-nos filhos, mudamos de casa, de país, e palcos... É natural que a música também mude e acompanhe essas mudanças todas. No dia em que fizermos um disco igual ao anterior por certo que a banda acabará...
 
E, por fim, gostava que falasse dos planos da banda para o Brasil. Podemos esperar mais shows de vocês nos próximos meses?

Vamos fazer São Paulo no dia 18 deste mês e o festival MADA no dia 20 em Natal e queremos regressar até a final do ano ou inicio do próximo. Estaremos pelo Brasil o máximo que pudermos. Temos felizmente outros países para trabalhar: uma equipa a trabalhar os Estados Unidos da América e Canadá, em Espanha temos mais de 25 datas pensadas para os próximos 3 meses. Vamos sempre ficar à espera de convites pra regressar. Queremos lançar o Primavera e tocar cá esse show, que é especifico de teatros  uma maneira de ouvir outra cara da banda. Queremos muito tudo... Queremos muito trabalhar e gritar o mais alto que possamos sempre que regressamos. É importante o Brasil perceber este Portugal de que nós fazemos parte. Portugal não é só fado e ainda bem que não é...


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