Sharon Van Etten . Mais Amor, Por Favor

A folksinger estadunidense amplifica seu som em um álbum produzido por Aaron Dessner, do The National.

POR SEAN EDGAR   TRADUÇÃO MATEUS POTUMATI
publicado em 24.04.2012 17:59  | última atualização 31.05.2012 14:52

POR Sean Edgar

Como Vincent Van Gogh, William Shakespeare e muitos outros artistas em muitos outros meios, Sharon Van Etten é uma escrava do amor. Suas baladas delicadas – dedicadas ora ao prazer compulsivo do amor, ora a sua dor igualmente notória –, fizeram dela uma especialista no assunto. Em três álbuns e um EP, a cantora e compositora do Brooklyn canalizou adoração, desilusão, espanto, culpa, ressentimento, autonomia e recuperação em canções intimistas o suficiente para parecerem saídas de um diário esquecido de adolescente.

Essas emoções atingiram o auge da maturidade em Tramp, disco novo de Van Etten pela Jagjaguwar. Ao lado de amigos como Zach Condon (Beirut), Jenn Wasner (Wye Oak), Matt Berrick (The Walkmen) e Aaron Dessner (The National), ela produziu um confessionário escaldante, que dá nova direção a suas canções de ninar acústicas – um caminho mais pungente, rico em epifanias elétricas e letras cortantes.

“Sharon tem um dom absurdo para criar harmonias, mas a crueza e a violência também estão em ebulição sob a superfície de suas músicas, é uma coisa muito poderosa. Ela me lembra o que eu adoro em PJ Harvey e Patti Smith.”
-- Aaron Dessner (The National)


Ironicamente, a jornada musical de Van Etten começou com um tipo diferente de drama. Sua primeira memória musical afetiva envolveu um rodopio faceiro de Julie Andrews nos cumes dos Alpes austríacos. “O primeiro musical que me tocou de verdade foi A Noviça Rebelde, porque meu pai e minha mãe gostavam muito. Acho que foi mais por ser uma coisa de família, que fizemos todos juntos. Continuei adorando musicais mesmo quando meus irmãos já tinham idade suficiente para odiá-los. Até hoje, uma vez por ano, eu e minha mãe vamos juntas à Broadway.”

Van Etten recita suas memórias em um frenesi desordenado. Ainda criança, os pais dirigiam 40 minutos de sua casa, na Zona Leste de Nova Jersey, até Manhattan, só para que ela e os cinco irmãos pudessem ver espetáculos de dança e linhas corais elaboradas na Broadway. Como todos os filhos eram nascidos em dias muito próximos uns dos outros, as viagens serviam como comemoração anual de aniversário para todo o clã. As excursões da família Van Etten deram a Sharon coragem para enfrentar o palco no ensino médio, quando eles se mudaram para a cidadezinha de Clinton, distrito pastoral uma hora a oeste de Nova Jersey. “Atuei em Camelot e Amor, Sublime Amor, que foi meu primeiro papel com fala. Fiz também Alô, Dolly! e O Flautista no Telhado. Em Amor, Sublime Amor, eu era a menina que queria fazer parte da turma, a molecona. Gostava de atuar porque não era um esporte, era algo em que todos trabalhavam juntos por um objetivo positivo, sem competição nem agressividade.”



Esses grupos adolescentes também alimentaram o tipo de sensibilidade que Van Etten adotaria em sua carreira. “Sempre fui romântica, então adorava o fato de que a maioria dos musicais e peças de teatro eram sobre romances”, lembra. Os musicais também inseriram Van Etten em um novo círculo social, pelo qual ela conheceu um tipo de música que estimularia suas aventuras pela composição – pioneiros do rock alternativo como Pavement, Sonic Youth e Liz Phair se tornaram santidades. Um ano depois, ela entrou para a Middle Tennessee University e decidiu estudar tecnologia e mercado musical, pensando um dia pilotar a mesa de som de algum grande estúdio. Mas ficou claro bem rápido que a academia não era para ela. “Eu nem cheguei a essa parte da grade, porque não consegui passar dos estudos gerais. Eu sempre odiei escola”, diz Sharon, com uma ponta de desprezo.

Então, ela largou a faculdade e arrumou emprego como garçonete em um famoso boteco indie que ficava num prédio dos anos 1920. O finado Red Rose of Nashville, nas imediações de Murfreesboro, no Tennessee, era um misto de bar, loja de discos e espaço de shows que abrigou uma leva de futuros trendsetters indie. Para uma apaixonada por música e aspirante a compositora como Van Etten, foi o lugar certo na hora certa. “Todo mundo ali tinha um gosto musical excelente, e rolavam muitas bandas. Pra completar, metade dos caras que trabalhavam comigo eram músicos. Então eu ouvia de Richard Buckner a Azure Ray. O lugar respirava música.”

Van Etten passou os cinco anos seguintes frequentando e trabalhando no lendário bar, que só fechou as portas em 2011, após décadas de atividade ininterrupta. E, embora tivesse começado a compor no ensino médio (“nada muito criativo”), foi em Nashville que a artista em gestação conseguiu compilar um patrimônio de baladas, marcadas por narrativas ultra-pessoais e melodias mergulhadas em lágrimas e mágoas. Esses cinco anos também foram ofuscados por uma figura anônima, cuja presença assombra muitas das melodias que Van Etten criou.

Ela se refere a esse personagem simplesmente como “a pessoa” ou fazendo uso de pronomes indefinidos. Não entramos em detalhes, mas o básico já é sabido: durante cinco anos, Sharon Van Etten namorou um otário completo. Esse cara, também conhecido como “o namorado”, tocava em uma banda local e acabou na cadeia depois que um vício em drogas avançou o sinal do clichê. “O namorado” teve papel central nas músicas de Van Etten, bem como nas trevas que as marcaram no início. “Essa pessoa do Sul não me apoiava em nada, então eu simplesmente não fazia shows. Aquilo me fez ter mais vontade ainda de compor, todos aqueles cinco ou seis anos sem tocar ao vivo ficaram acumulados. Então eu voltei pra casa dos meus pais e comecei a gravar tudo.”



Van Etten relata esse tempo sombrio em um tom monótono e suave, despido de drama após incontáveis entrevistas e sessões de exorcismo musical. O auge do sofrimento da cantora deu forma à maior parte do seu álbum de estreia, Because I Was In Love, e sua elegante sequência, Epic. O single “Love More”, do último, se destaca com brilho determinado em meio a um emaranhado de contos detalhados sobre abuso emocional e submissão forçada. Com seu falsete cadenciado, Sharon canta sobre um “anjo secreto” que a “fez amar mais” no meio de um relacionamento caótico. Outros versos são menos alegres e descrevem a cantora “acorrentada à parede do nosso quarto” e “amarrada à minha cama”. A história marca uma estranha reviravolta narrativa  em tom e sentido, e a descrição de Van Etten é dilacerante. Mais terrível ainda é saber que a maior parte da narrativa poética é literal.

“Nós tínhamos que falar escondido pelo telefone, porque na época eu não tinha permissão pra conversar com ninguém. Foi uma época muito, muito, muito difícil e eu não sabia o que fazer. Eu estava me enganando de verdade naquela época.”

“‘Love More’ é sobre uma amiga que ajudou a me convencer a sair do Tennessee. Ela era de Nova York, e nós tínhamos que falar escondido pelo telefone, porque na época eu não tinha permissão pra conversar com ninguém. Eu saía em longas caminhadas e conversávamos sobre o que estava acontecendo. Um dia, finalmente, ela me convenceu a ligar para a minha irmã e pedir que ela me resgatasse. Foi uma época muito, muito, muito difícil e eu não sabia o que fazer. Minha irmã me pagou uma passagem de avião até Vermont, e eu fiquei com ela por um tempo, tentando colocar a cabeça no lugar. Mas isso só aconteceu porque minha amiga me deu muita força pra decidir. Eu estava me enganando de verdade naquela época.”

O enredo da música é devastador: uma romântica incorrigível se apaixona por um estereótipo de roqueiro, que não apenas destrói suas aspirações artísticas, mas literalmente a proíbe de se comunicar com o mundo exterior, temendo que seu cativeiro seja revelado. Mais perturbadora é a ideia de Van Etten como uma namoradinha inocente, intoxicada pela ideia de um romance ao estilo da família Von Trapp (a família de Julie Andrews em A Noviça Rebelde), agora despido do idealismo surreal, em Technicolor e paetês, que ela havia descoberto nos palcos. Van Etten foi escrava de um amor que nunca existiu. Por cinco anos.

Depois de ficar em Vermont com a irmã, assustada, Sharon voltou a morar com os pais em Nova Jersey. A influência maligna do agora ex-namorado não estava mais ali, empurrando seus sonhos para último plano. Ao contrário, ele serviu de musa para a adoração perdida de uma jovem que “não tinha nada a perder, a não ser tempo” com um amante que a confinava em um buraco negro. Enquanto repassava os anos de repressão, Sharon lembrou que “não havia chorado pra valer até me mudar pra Nova Jersey e me dar conta das coisas de verdade”. Essas sessões de catarse resultaram nas dez músicas de Because I Was In Love, em 2009.

Antes do lançamento, porém, Van Etten retomou seu antigo sonho de trabalhar com música e foi fazer um estágio de assessoria no famoso selo indie Badabing Records, de Manhattan. Distribuidora de nomes como Sons & Daughters, tUnE-yArDs e Essie Jane, a Badabing foi a rede ideal para que a nova artista divulgasse seu trabalho e conhecesse outros músicos. Zach Condon, do Beirut, foi um desses contatos. “Eu estava começando como estagiária na Badabing e ele era um dos artistas que estávamos lançando”, ela explica. “Depois que ele saiu e fundou seu próprio selo, fui trabalhar meio período e comecei a viajar com as bandas. Eu cheguei a abrir pro Beirut, nós tivemos algumas boas conversas e nos conhecemos. Mas depois acabamos não nos vendo mais na estrada.” A primeira impressão de Condon também foi ótima. “Eu fiquei muito impressionado com a voz dela... Era muito rica, e as harmonias bateram forte. Como parceira de viagens, ela é muito tranquila.”

O apoio do Beirut foi o pontapé inicial na formação de um grupo simpatizante de Van Etten, composto por artistas da comunidade indie do Brooklyn. Kyp Malone, do TV on the Radio, a acolheu, levando a nova moradora de Manhattan a shows e círculos indies que fervilhavam em dive bars e galpões espalhados pelo rio Hudson. Em abril de 2010, Van Etten viu um vídeo no YouTube, no qual duas bandas em ascensão tocavam uma música sua, em um festival em Cincinnati, Ohio. “Eu estava em turnê com o Megafaun, que era a banda de apoio de Justin Vernon (do Bon Iver). Vi um vídeo curto com Vernon, mais Aaron e Bryce Dessner (do The National), fazendo um cover de ‘Love More’. Eu estava me preparando para gravar Epic na época, ‘Love More’ era só um single.” O vídeo foi decisivo na carreira da cantora. Van Etten entrou em contato imediatamente com a produção do National para sondar se o quinteto teria interesse em participar de Epic. Aaron Dessner, guitarrista e principal compositor da banda, respondeu na hora: a banda estava com a agenda cheia, mas ela estava convidada a visitar o frondoso estúdio de garagem que ele tinha e no qual vivia com o vocalista Matt Beringer em Ditmas Park, Brooklyn. Por coincidência, a irmã de Dessner, Jessica, já havia realizado um show de Van Etten em seu espaço no mesmo bairro, o Sycamore, não muito tempo antes.



“Eu senti um frio na espinha quando ouvi ‘Love More’ pela primeira vez, e mais ainda quando nós tocamos em Cincinnati, com Justin no vocal”, lembra Dessner. “Fiquei com muita vontade de conhecê-la e pressenti que poderíamos trabalhar juntos.” A química imediata, mesmo à longa distância, resultou na parceria entre Van Etten e The National em uma faixa para o filme Win, Win, de 2011. Enquanto isso, os tons suaves e cheios de alma de Epic chegavam a blogs e revistas, e Van Etten começou a viajar pelo país. Outro grupo do Brooklyn a quem ela se aliou, The Antlers, também ganhava notoriedade. O trio acabou recrutando a cantora para fazer um falsete etéreo na faixa instrumental “13”, do álbum Hospice (2009). Essa conjunção de fatores criou um ambiente de talento e apoio sólidos em torno de Van Etten. A reputação crescente, a personalidade dócil e os discos assombrados da compositora lançariam a base perfeira para seu terceiro disco.



“Eu queria que Tramp expressasse o sentimento de falta de um teto e de uma vida bagunçada, mas não de maneira negativa, nem vulnerável. Eu queria que o título soasse feminino sem soar fofinho. Isso meio que resume meus últimos dois anos.”

Tramp foi gravado em um ano, entre 2010 e 2011, e finalizado sob o sufocante calor de Nova York em agosto. Produzido e guiado por Dessner, que toca em quase todas as faixas, o disco inclui ainda pontas de Zach Condon, Jenn Wessner (Wye Oak) e Matt Barrick (The Walkmen). O título ambíguo faz referência ao turbilhão de busca emocional e nomadismo que é a vida da cantora. Praticamente uma sem-teto, ela aproveitava janelas na turnê para encarar sessões de gravação de 12 horas no estúdio de Dessner.  “Foram dias intensos, que em teoria eram nossas folgas. Uma correria tremenda, mas foi muito divertido”, ela conta. “Eu queria que Tramp expressasse o sentimento de falta de um teto e de uma vida bagunçada, mas não de maneira negativa, nem vulnerável. Eu queria que o título soasse feminino sem soar fofinho. Quando eu estava fazendo minha pesquisa, descobri que tramp originalmente significa não ter uma casa. Charlie Chaplin foi um exemplo, o ‘tramp’ original. Na Nova Zelândia, ‘tramp’ significa acampar e viajar. Gosto da abertura do termo, mas as poucas coisas que ele ainda significa são muito específicas (“tramp” pode significar “vagabundo” ou “mendigo”, mas também “biscate”, “piranha”). Isso meio que resume meus últimos dois anos.”

Se Because I Was In Love e Epic são o triste lamento de uma mulher em luto pelo amor e pela inocência perdidas, Tramp é um reencontro sólido e amplificado, embalado por grossas camadas de guitarra distorcidas e percussão. O corrosivo single “Serpents” cresce em uma torrente de caixas de bateria enquanto Sharon rosna “You enjoy sucking on dreams… I had to fight, you will take me seriously” (“Você gosta de roubar sonhos/ Eu tive que lutar, agora você vai me levar a sério”). É um grande momento de grrrl power afirmativo, vomitado na cara do (quase) esquecido namorado. A cantora atribui seu novo e assertivo som a Dessner, que “trabalhava até alguém arrastá-lo pra fora do estúdio”. A mente por trás do National também desafiou o alcance vocal de Van Etten e a inundou em um mar de novos pedais de guitarra para engrossar o caldo.



“Sharon tem um dom absurdo para criar harmonias, mas a crueza e a violência também estão em ebulição sob a superfície de suas músicas, é uma coisa muito poderosa. Ela me lembra o que eu adoro em PJ Harvey e Patti Smith. Esteticamente, acho que consegui tirar as canções dela da zona de conforto”, explica Dessner. “Eu não queria fazer mais um disco de alternative country ou de cantora-compositora, ela já fez ambos. Sharon é roqueira de verdade, por isso eu senti que precisávamos aproveitar o lado agressivo do seu trabalho e torná-lo claro e poderoso. Fluiu tudo muito naturalmente pra mim, e acho que ela também se esforçou para chegar a esse resultado.”

Depois que o disco foi gravado, Van Etten se mudou para o mesmo bairro verde e tranquilo de Dessner, para se sentir um pouco menos “tramp.” Não por coincidência, enquanto conversávamos um técnico de internet nos interrompeu para instalar um roteador wireless em sua nova casa. De março a outubro, a cantora indie de 20 e poucos anos estará em turnê pelos Estados Unidos e Europa. Depois, começará a trabalhar no próximo álbum – ela já começou a aproveitar as folgas para alimentar seu laptop com ideias, mixando linhas vocais minimalistas, batidas e arranjos de cordas.

Como previsível, Van Etten assume um papel adicional quando está em turnê: o de irmã mais velha e conselheira dos fãs. Suas histórias tocantes e brutalmente honestas a colocam ao lado de heróis dos desiludidos como Bob Dylan e Elliott Smith, exercendo uma autoridade inata sobre os hormônios e calamidades do amor louco. Até Dessner admite que foi “a sinceridade e a seriedade” de Van Etten que o atraíram nela. Sharon não se vê como uma guia qualificada, mas não se importa em emprestar o ouvido. “Já conheci pessoas com histórias pesadas e sinistras e pessoas com histórias felizes sobre como se conheceram em um show meu, depois de passarem por uma separação dolorosa, e acabaram juntos. Alguns ex-professores me escreveram dizendo que minhas músicas ajudam os alunos nas aulas. Um psicólogo também já me disse que minha música funcionou como terapia para meninas com depressão. É sensacional ouvir qualquer história de pessoas que se identificaram com alguma canção minha.” Ela faz uma pausa reflexiva e prossegue. “Amor e desilusão são coisas muito pessoais, para todo mundo. Acho fantástico que a música tenha impacto nas pessoas, pra mim é algo muito, muito importante. Mas é difícil as pessoas admitirem.” Sharon Van Etten certamente não é uma delas.

Saiba mais:
sharonvanetten.com


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