Q-Tip . Realidade Abstrata

O eterno líder do A Tribe Called Quest conversa com a Soma sobre projetos, LPs favoritos e música brasileira

POR PEDRO PINHEL
publicado em 24.04.2012 18:30  | última atualização 31.05.2012 18:37

POR Camila Miranda

Um dos principais MCs da história do hip-hop, o nova-iorquino Q-Tip, a.k.a. Cotonete (tradução literal para seu apelido, dado pelo Jungle Brother Afrika Baby Bam), a.k.a The Abstract, membro do lendário grupo A Tribe Called Quest, foi a principal atração do festival Batuque, realizado nos dias 10 e 11 de dezembro de 2011 no sempre ótimo SESC Santo André.

Enérgico, um tanto quanto andrógino e acompanhado por uma banda e pelo DJ Statik Selector, o artista fez um par de shows nada menos do que antológicos. Embora absolutamente similares, as apresentações deixaram algumas evidências – além, é claro, da certeza de que havíamos acabado de presenciar um dos grandes artistas do gênero em atividade. É necessário destacar o altíssimo grau de profissionalismo de Q-Tip, que contava inclusive com uma COREÓGRAFA no palco, algo nunca visto no hip-hop supostamente underground (ou no tal do conscious rap) desde... Ney Matogrosso?!

Afiada, a banda de Tip (que visualmente parecia uma espécie de formação desgarrada do Living Colour) levou mais broncas de seu frontman do que os pupilos de James Brown num ensaio no distante ano de 1974. Pior para o DJ Statik Selector, que no show de sábado parecia criança de castigo na primeira carteira, depois de ter tomado umas três ou quatro duras do Cotonete, que chegou a parar algumas músicas ainda no começo sugerindo que o DJ não estava “on point”. Pior pro Selector, melhor pro público, que teve uma verdadeira aula de como NÃO se berrar ao microfone (nada pessoal, rap nacional).

Dançando, interagindo, brincando e fazendo os clássicos joguetes do party rap tão bem executados por gente como seus parceiros do De La Soul e pelos Beastie Boys, o rappero conquistou imediatamente as cerca de 3 mil pessoas presentes em cada um dos dias. Misturando em doses perfeitas faixas de seu mais recente LP, The Renaissance (2008) e clássicos da discografia do ATCQ, Tip fez a danca do robô, tirou onda com sample de Michael Jackson (pra abertura de um de seus hits, a ótima “Move”), cantou, rimou e, acima de tudo, manteve a energia da rapaziada no limite durante pouco mais de uma hora de apresentação.



Os sucessos foram surgindo um a um: “Bonita Applebum”, “Check The Rhyme”, “Award Tour”, “Find a Way”, “Buggin' Out”, “Can I Kick It?”, tudo de acordo com a mais alta das expectativas (mas, pô, Tip... não tocar “Oh My God?!”). Ao final de cada uma das apresentações, uma certeza pra todo mundo que gosta de rap: alma lavada. Artistas como Q-Tip definitivamente levam o estilo ainda tão cheio de preconceito e desconhecimento por aqui a uma outra categoria, na qual soul, jazz, funk, pop, reggae e (até mesmo!) hip-hop se fundem de forma natural e espontânea, seja com uma banda ou na tradicional formação MC/DJ – e provando que um emcee pode ser muito mais que um moleque (ou, em alguns casos, oito no palco ao mesmo tempo) esgoelando ao mic com o mesmo flow em toda e qualquer faixa.

As apresentações do rapper foram fundamentais em uma série de aspectos. Em primeiro lugar porque retomaram a tradição das grandes apresentações dos principais MCs e grupos de rap norte-americanos por aqui, preenchendo a lacuna deixada por iniciativas como o saudoso Indie Hip-Hop, festival que possibilitou a vinda de gente como Mos Def, Talib Kweli, Pharoahe Monch, De La Soul, Jurassic 5 (no auge!), Hieroglyphics e Blackalicious ao Brasa.

Outra razão é o fato de que Tip, assim como seu grupo, A Tribe Called Quest (que conta ainda com os também talentosíssimos Phife Dawg e Ali Shaheed Mohammed, e até mesmo o misterioso Jarobi, cuja participação no ATCQ é questionada pelo autor destas linhas), nunca havia se apresentado no Brasil. A lenda de possíveis apresentações do grupo em terra brasilis já havia se dissipado há algum tempo, até mesmo pelo fato de seus dois principais representantes, Tip e Phife, serem historicamente mais tretados que Keith Richards e Mick Jagger. Além disso, toda iniciativa nesse sentido esbarrava em problemas de (altíssimo) orçamento: a recente supervalorização das apresentações da Tribe (o grupo voltou a fazer shows pontuais em função de um grave problema de saúde de Phife Dawg, que precisou contar com os cachês das gigs revertidos para o tratamento de um sério quadro de diabetes) fez de Tip uma espécie de Último dos Moicanos da tal Golden Era do estilo nos EUA a se apresentarem por aqui.

Quer saber mais sobre a história de Q-Tip e da Tribe? Então não vacile e procure pelo documentário Beats Rhymes & Life - The Travels Of A Tribe Called Quest, dirigido pelo folclórico ator e diretor norte-americano Michael Rapaport, fã assumido do trio. O filme narra a carreira, os encontros e os desencontros do grupo que é considerado por muita gente o mais completo do hip-hop (e aqui eu peço calma aos die hard fans de grupos como Public Enemy, NWA ou De La Soul; tá tudo bem, rapaziada) em todos os tempos. Vai que vai!

Em um dos breaks do agitado final de semana, Mr. Cotonete bateu um papo de cerca de 20 minutos com a reportagem da Soma numa quente manhã de domingo, no próprio camarim do SESC, pouco depois da passagem de som do segundo dia. Confortavelmente largado sobre meia dúzia de pufes, vestido como se estivéssemos no mais rigoroso inverno em Jamaica, Queens, mastigando croissants oferecidos pela equipe do SESC seguidos por um interminável chiclete – facilmente identificável no áudio da entrevista – e acompanhado por mais assessores e homepeople do que jogador de futebol e sub-celebridade, Tip conversou com a gente de forma tímida, reticente, 25% blasée, e foi se soltando à medida que o assunto foi tomando forma. Mais animado, ele listou, entre outras coisas, quem são seus produtores, MCs e álbuns favoritos, além de espinafrar a indústria fonográfica, falar sobre seu próximo projeto, The Last Zulu – com previsão de lançamento para setembro – e associar sua criação musical a uma sessão de terapia. Confira!

Você é produtor, MC, DJ e também colecionador de discos. O que te fascina mais a respeito da música hoje em dia?

Acho que a coisa que mais me fascina a respeito da música hoje em dia é a tecnologia. Mas parece que quanto mais a música se torna tecnológica, tem muita gente trabalhando pra que a coisa soe mais e mais analógica, com aquela vibe antiga, boa. Isso pra mim é bem fascinante.

“Quando você está concebendo sua arte, está sempre bastante vulnerável. Então de certa forma a produção independente mantém a essência do seu trabalho e te protege de rótulos ou coisas que não estão necessariamente ligadas ao que foi criado por você.”


Essa é a razão pela qual você é um notório colecionador de discos de vinil?

Não, eu só adoro discos em geral. Claro que eu os uso e sempre usei como base para os meus experimentos, mas eu tenho muito interesse em descobrir música nova.



Você foi atrás de discos em São Paulo? Vai ter tempo de ir atrás?

Ah, eu vou. Eu tenho que ir.

The Renaissance é um álbum sobre temas bastante pessoais. Na minha opinião, ele é conceitualmente próximo ao 808s & Heartbreak, do Kanye West. Você concorda com isso? O LP é 100% você?

Sim, 100% Tip ali.

O material do disco é completamente diferente de coisas como (o hit) “Bonita Applebum”, de 1992. Quase como uma sessão de terapia, pra você?

(Ri de forma contida) Terapia?! É mais ou menos isso, sim. Não sei se chega a ser tão profundo assim, mas é bastante terapêutico pra mim, de certa maneira. A música... se você consegue se manter aberto, que é o que eu tento fazer... Acho interessante você comparar a música do disco a uma sessão (de terapia), porque acho que a honestidade é facilmente identificada em todo o material. Então acho que isso é uma coisa boa. Se as pessoas conseguem sentir isso e se identificar, então é uma coisa positiva.



Você conhece, gosta ou coleciona música brasileira? Algum artista específico?

Sim, eu sou muito fã de música brasileira. Paulinho da Costa, Emílio Santiago, Milton Nascimento... Toninho Horta... Wagner Tiso... amo esses artistas. Sou muito fã de música brasileira em geral.

Qual o estilo musical que você mais gosta de ouvir hoje em dia, quando está em casa, relax?

Gosto muito de escutar música velha em geral (interrompe ironicamente e pergunta pra assessora algo como "desculpa, o que você tá falando aí?", e volta rindo à conversa). Então... eu realmente gosto de ouvir coisa velha. Eu acabo ouvindo coisas novas, que o pessoal sugere, mas aí eu acabo voltando pras minhas músicas velhas mesmo (risos). Quando estou relaxando, em casa, gosto de ouvir... hum... Stevie [Wonder]... Marvin [Gaye]... coisas da Motown... [Led] Zeppelin, Beatles... The Clash...

Você gosta de reggae?

Adoro reggae. Põe Bob Marley aí na lista!

Sua parceria com [o finado produtor J-] Dilla é muito celebrada, e de certa forma mudou sua forma de produzir e criar música; do estilo chiado e funky do início dos anos 90 até a “vanguarda” de um disco como The Love Movement (de 98, produzido em parceria com Dilla). Qual a influência de Jay Dee no seu som?

Há uma clara influência aí, sim. O curioso é que na primeira vez que escutei Dilla, identifiquei muito das minhas coisas ali, da minha música. Obviamente ele se tornou uma das minhas maiores influências, então acho que a resposta à sua pergunta é esta: J-Dilla é fundamental pra minha música.



“Na primeira vez que escutei Dilla, identifiquei muito das minhas coisas ali, da minha música. Obviamente ele se tornou uma das minhas maiores influências. J-Dilla é fundamental pra minha música.”

Já que estamos falando de produtores, quem são seus produtores favoritos, de qualquer época?

De qualquer estilo, ou de hip-hop?

Pode ser de qualquer estilo, mas acho que o pessoal vai querer saber dos produtores de hip-hop (risos).

Meus produtores favoritos... hum... Vamos lá: Dilla, obviamente... eu gosto do... (demora muuuito pra responder) do... Dre... gosto do [DJ] Premier, claro... Pete Rock, Large Professor...

Todos geniais!

Sim, são os meus favoritos. Acho que esses aí.

Qual o seu disco preferido, entre os que você produziu?

O meu disco preferido, entre todos que produzi, ainda não foi feito (ri bastante, visivelmente relaxado neste ponto da conversa). Mas quando eu olho pra trás, ainda fico bastante impressionado com algumas das coisas que produzi. Algo como “cara, fui eu que produzi isso? Uau.” Estou bastante empolgado com as possibilidades do próximo projeto...

“As gravadoras são superestimadas. Antes havia pessoas que gostavam de música e conheciam música nas grandes gravadoras, tinham paixão pela música. Tudo isso acabou.”

Você acha que o Q-Tip merece estar na sua lista de grandes produtores do estilo (risos)?

Sim, eu sempre me senti parte dessa lista. Eu definitivamente acho que estou junto com esses caras todos aí.

E seus MCs favoritos?

MCs, vamos lá: G-Rap... Kool G-Rap. Esse cara é fantástico. Rakim, Biggie, Nas...

Alguém da tal nova geração?

Gente nova? Tem alguns bem talentosos. Eu gosto de Kendrick Lamar... gosto do Earl Sweatshirt... Mas esqueci de citar alguns da velha guarda! Slick Rick. Slick Rick é demais.

Você fala da indústria fonográfica com alguma frequência em suas letras. Você já esteve em três gravadoras diferentes ao longo de 20 anos. Já pensou em ser artista independente? O que você pensa a respeito?

Eu vou fazer o que for necessário pra manter meus negócios bem. Acho que as gravadoras são superestimadas. Antes havia pessoas que gostavam de música e conheciam música nas grandes gravadoras, tinham paixão pela música. Penso que a grande maioria das pessoas que trabalha na indúsria fonográfica dos EUA hoje em dia pode até já ter sido apaixonada por música em outros tempos, mas tudo isso acabou. Eles não estão mais lá por amor à música, fazem isso apenas pelo dinheiro, pelos negócios. Não existe mais criatividade no que essas pessoas fazem.

Existem hoje grupos como o (duo californiano) People Under The Stairs, que afirma não precisar de gravadora para os processos de gravação, divulgação, distribuição e tal. Você concorda que isso é possível?

Tem muita gente talentosa hoje indo pra esse lado, da música independente. Quando você está criando, concebendo sua arte, está sempre bastante vulnerável. Então de certa forma a produção independente mantém a essência do seu trabalho e te protege de rótulos ou coisas que não estão necessariamente ligadas ao que foi originalmente criado por você. Quando você está em uma gravadora com mais uma dúzia de artistas, esses caras definitivamente não estão preocupados com a essência artística e criativa do seu trabalho. Eles querem apenas viabilizá-lo. Estão mais preocupados com o prazo de entrega do disco do que com qualquer outra coisa. Como é possivel que um artista se sinta confortável com isso? Acho que muitos artistas hoje pensam dessa forma. O sangue, o suor e as lágrimas podem dar resultado, no final das contas.

“Quando você está em uma gravadora com mais uma dúzia de artistas, esses caras definitivamente não estão preocupados com a essência artística e criativa do seu trabalho. Eles querem apenas viabilizá-lo. Como é possivel que um artista se sinta confortável com isso? O sangue, o suor e as lágrimas podem dar resultado, no final das contas.”

Você quer falar um pouco sobre seu novo projeto?

Sim. Deve sair em setembro, o título por enquanto é The Last Zulu. É um disco conceitual.

Referência explícita à Zulu Nation, certo?

Sim, claro. E também à minha ascendência Zulu, da Àfrica do Sul, por lado de pai. O conceito do álbum vai ficando mais claro à medida que eu penso a respeito, e vai ser bem legal. Musicalmente vai ser incrível!

Muitas experiências pessoais, como no disco anterior?

Não, não é necessariamente pessoal. Claro que é pessoal no sentido de que está sendo feito por mim (risos), mas vai haver um personagem central aí. Da mesma forma que o The Wall, do Pink Floyd, era sobre alguém lidando com insubordinação... Coisas assim. Como Ziggy Stardust, do David Bowie, é um álbum conceitual. Thriller eu também vejo como um disco nesses moldes, conceitual.

O que você achou da apresentação da noite passada (sábado, 10/12, primeiro dos dois shows de Tip no SESC Santo André)? Você gostou da energia, do público?

Sim, foi demais. Espero que as pessoas tenham gostado.


Foto por Fábio Bitão

O público brasileiro sempre esperou por uma apresentação d'A Tribe Called Quest por aqui, pelo fato de nunca ter rolado. Acho que todo mundo estava muito ansioso pra te ver ontem.

O público foi demais ontem. Eu me diverti bastante.

Qual é o seu disco preferido, entre todos que gravou?

Eu ainda não gravei meu disco preferido. Sobre os discos que já gravei, não tenho um que seja meu favorito.

A última pergunta vai ser um tanto quanto complexa de se responder rapidamente... Quais os seus cinco discos favoritos de todos os tempos?

Hip-hop, ou qualquer coisa?

Qualquer coisa.

Não sei se tenho cinco favoritos... Vou listar alguns dos meus favoritos, ok? Stand, do Sly & The Family Stone. “Waiting In Vain”, do Bob Marley. Hot Pants, do James Brown. “Eric B Is President”, do Eric B & Rakim. E Sucker MCs, do Run DMC.

Saiba mais:
www.qtiponline.com

tags:
 Q-tip, pedro pinhel, a tribe called quest, sesc

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