Terra Preta lança EP O Romance e a Melodia da Rua na Soma, baixe

Novo álbum do cantor é influenciado por R&B. Ouça as faixas e leia uma entrevista com o Terra Preta

POR AMAURI STAMBOROSKI JR.
publicado em 22.03.2012 16:16  | última atualização 22.03.2012 19:20

Terra Preta POR Fernando Martins Ferreira

Uma das vozes mais melódicas do novo rap nacional, Terra Preta escolheu a Soma para lançar seu novo EP, O Romance e a Melodia da Rua, um disco de R&B que vai fazer muita gente balançar a cabeça e os quadris em 2012.

Baixe aqui O Romance e a Melodia da Rua


Com produção de Hand Beats, Dingo Beats, DJ Coca, Sozin Beats, Skeeter Beats e DJ Hum, além de participações de Don L., Cauãn Sanfer, Sequelle e Big, o disco fala de maconha (em “Fumando Um”, “homenagem aos amigos maconheiros”, segundo o cantor), sexo (“Transando a Noite Inteira”) e tráfico (“Gueto É Fantástico”), entre outros temas cabulosos e notívagos, explorando o talento vocal de Terra de maneira inédita. Ouça abaixo as tracks e leia a entrevista que fizemos com o cantor numa madrugada perdida na Rua Augusta.


Qual foi o primeiro disco de rap que você comprou?

Eu não comprei, eu peguei emprestado umas fitas cassetes gravadas de programas de rádio pirada da quebrada.

Quais rádios eram essas?

Tinha a Grajaú FM, a Onda FM e a Vitrine FM. Naquela época o rap tava top, Sabotage, Racionais MCs, os grandes nomes do rap bombando. Mas não foi aí que eu conheci o rap. Conheci o rap em 1996. Eu sou de família evangélica. Durante toda a minha infância eu fiquei em casa, sem conhecer as coisas do mundo. Na época era bem restrito, não tinha nem televisão em casa, fui assistir TV pela primeira vez com dez anos. Em 96, lá no Jabaquara, eu ouvi uma música muito estranha, que o cara cantava muito rápido e tinha uma batida muito violenta, muito pesada e muito empolgante. Na época os sucessos da rádio eram Mamonas Assassinas, Raça Negra. Eu gostei, é claro, mas não sabia o que era rap.

Quando eu me mudei para outro bairro, em 98, explodiu Racionais com “Diário de um Detento”, Sobrevivendo no Inferno. “Din din don/ Rap é o som/ Que emana do Opala marrom” (canta o trecho de “Capítulo 4, Versículo 3”), quando eu ouvi essa rima eu descobri que isso se chamava rap. Depois eu descobri que a música que eu ouvi em 96 era “Thug Love”, do Bone Thugs-n-Harmony e do 2Pac.

Nessa época do Jabaquara eu conheci o Ezequiel, que era o cara mau da sala de aula: não falava com ninguém, sempre faltava e era o único que conseguia pular o muro da escola (risos). Em 99, no Grajaú, encontrei o Ezequiel de novo, era meu vizinho, e ele tinha várias músicas gravadas de rádio piratas. Nessa época a minha família já tinha se afastado da igreja e eu comecei a curtir a música do mundo.

Você gostava de música antes?

Eu sempre fui na igreja para ouvir música, até depois que meus pais se afastaram. Eu subia no púlpito para cantar, sabia todas as músicas, imitava os cantores gospel. Eu desgravava as fitas gospel da minha mãe para cantar por cima as mesmas músicas, com a minha voz. E quando chegou essa época eu comecei a desgravar mais ainda (risos), só que dessa vez era programa de rádio pirata e o Espaço Rap da 105.

Quem me mostrou o rap, precisamente, que falou, “isso é bom, isso é ruim, isso é legal, isso é uma merda”, foi o Ezequiel. Eu tinha 12 ans e ele 14. Nas fitas ele tinha Wu-Tang Clan, Mobb Deep, Jay-Z, umas paradas undergroud também, além dos balanços que faziam sucesso.

Quando eu tinha 13 anos a gente começou a gravar freestyle sem saber o que era freestyle. Foi quando eu gravei meu primeiro rap, inspirado no grupo Jigaboo – que a gente curtia porque a gente era moleque, era diferente do outro rap, tinha mais a ver com a gente, ficar tirando sarro um do outro.

Eu comecei a estudar numa escola chamada Carlos de Morais no Grajaú e conheci vários caras que também curtiam rap. No dia 31 de julho de 2002 o Brasil foi pentacampeão, e eu fiz meu primeiro show. Numa quermesse, com um grupo chamado Rebelião Mental, que a gente montou na escola. A gente tinha rimas diferentes dos outros grupos do Grajaú, umas letras inspiradas em jogos de guerra, ataques espaciais de alienígenas.

Uma influência underground...

Isso, mas com uma influência política também. Na época a gente fez uma letra contra a ALCA – lembra que naquela época os Estados Unidos queria criar a ALCA ainda? Tudo isso baseado nuns caras da nossa quebrada, uns caras chamados Pacto Latino, cuja temática era denunciar os problemas que aconteciam na América Latina. Tinha um cara que cantava em espanhol e francês, tinha o Criolo, que era a linha de frente do grupo e tinha um cara que tinham umas rimas mais criptografadas.

Depois disso o Criolo largou o grupo e eu comecei a ser a segunda voz dele em todos os shows. Ele pegou um contrato com um empresário que não ajudou em nada, deixou ele dois anos amarrado e nessas eu tava com ele fazendo show. Passando debaixo da roleta no busão, indo pra lá e pra cá, fazendo show de graça em todo canto. Foi muito louco.

Era totalmente sem rumo, porque naquela época o rap antigo tinha morrido de certa forma, e o novo parecia que não ia dar certo.

E por que esse rap “antigo” estava morrendo?

Porque um fator ligado ao rap da época era a violência. Dos anos 80 para os anos 90 começou a estourar a violência, e os anos 90 foram muito violentos.  Quando a pacificação do PCC chegou nas periferias, o rap já era visado como muito violento. Em todo show que você ia morria alguém. Num dos primeiros shows que eu fui morreu um cara do meu lado, tomando tiro. Nisso, na música que tava tocando, o DJ tava soltando uns tiros na colagem, então você não sabia se o tiro era do seu lado ou se vinha da música.

Além disso, só tinha um tipo de rap, que era o rap pesado. Esse rap novo, que a gente já tá acostumado a ouvir, não existia – tinha o Quinto Andar e tal, mas era na internet, do Rio, e era tirado. Era visto como “esses playboys”, porque eles tinham acesso à internet. O rap acabou se tornando muito maçante, porque era a mesma mensagem, o mesmo papo, todo mundo queria fazer uma música de doze minutos.

E nem todo mundo é Mano Brown pra aguentar uma música de doze minutos...

Isso mesmo. Todo mundo queria ser gangsta. Às vezes o cara era mó comediante, engraçado pra caralho, ou então era um bobão que podia apanhar que não fazia nada, mas chegava no microfone e mandava “É irmão, o bagulho tá sinistro”. Então o rap criou uma linhagem em que certas pessoas não tinham personalidade. E assim as pessoas enjoaram, ninguém podia falar disso, daquilo. Tinha que ter o cara que fala de fumar maconha, de política, tinha que formar todo um conjunto para criar um cultura.

E como foi pegar essa época?

Foi o maior sofrimento. Não tinha evento de rap, e os que tinham a gente cantava de graça, fazia por amor. Você pergunta, “por amor, mano”? Põe amor nisso! A gente só tocava em troca de comida. Dois, três anos fazendo isso, todo fim de semana. E sem pretensão de conseguir alguma coisa, porque não tinha caminho, não tinha possibilidade de se viver de rap.

Foi aí que surgiu o Orkut. No Orkut você podia enviar a sua música para mil amigos. Seu MySpace às vezes tava dando 300 visitas por dia. E isso popularizou o rap na internet. Os caras da antiga não aceitavam, “esse negócio de rap na internet, vocês tão viajando”. É claro que a gente tava viajando, mas não tinha outra opção. Era caro comprar um CD virgem nessa época, não tinha esse caminho de vender de mão em mão, como se faz hoje.

Com o surgimento de algumas festas começamos a dar os primeiros passos. Era sempre a mesma turma: Pentágono, Criolo, Slim, Max B.O., Kamau. A primeira que a oportunidade que esse novo rap teve de se expressar foi na Galeria Olido, uma galera se reunia toda quarta-feira para fazer freestyle e escutar um som. Foi ali que eu tava me criando. Participei das mesmas batalhas da Rinha, lá no Grajaú. O Criolo teve a ideia no ônibus, pensando nas batalhas do Rio. A gente conseguiu um espaço lá em Interlagos, que era um Espaço Caipira, coisa assim, com palha no teto, tinha mais a ver com forró do que com rap. E juntou uma galera. Foi ali que eu tive meu primeiro pocket show solo. Resolvi fazer sozinho porque estava dando muito trabalho, era difícil organizar sete MCs (risos).

E daí você foi fazer seu primeiro disco...

Foi um EP, chamado Exposição de Pensamentos, em 2007. Na mixtape Milionário em Treinamento eu conto que meu primeiro show foi na Rinha, num sábado que o Kamau não pôde ir. O Criolo me ligou e falou, “Terra, você vai cantar porque o Kamau não vai poder ir”. Eu fiz as músicas em uma semana. Depois eu gravei e vendi duzentas cópias, Exposição de Pensamentos vol. 1. Até hoje está esperando o volume 2 (risos).

Daí foi um longo caminho até o Milionário...

Eu fiquei o ano de 2007 escrevendo bastante. Das sete da manhã às sete da noite escrevendo, sem parar. Fique fazendo isso durante uns seis meses. Depois disso eu fiquei sem dinheiro (risos). Eu queria trabalhar com música, só que a música não dava dinheiro, ninguém ganhava dinheiro. Pensei, “não vou trabalhar num trampo que eu tenha que cumprir horário que senão eu tou ferrado”. Aí um dia eu vi um cara vendendo churrasco grego na rua e pensei, “é isso!”. “Vamos montar uma parada dessas”, falei para a minha mulher. Resultado: nos fodemos (risos). Fomos para a rua, passamos o maior perrengue tentando vender essa parada e não deu resultado. Vendi no Grajaú, no Santo Amaro, na frente do Bom Prato, no Centro.

Na metade desse caminho apareceu a inscrição para o programa Astros, do SBT. Nisso eu já tinha aparecido no Central da Periferia, no Som Brasil Vinícius, e eu tava nessa situação. Você vê que quem tá na televisão não é porra nenhuma (risos). Fui com um violão e passei na primeira seleção de testes. Na segunda já era o piloto do programa, no ar. Eu fui aprovado, fiquei entre os selecionados. Cantei uma música do Cassiano e eles gostaram. Cheguei na final e falei, “ah, vou cantar a minha música”. Quando eu ficava dez horas escrevendo por dia eu fiz uma música com rimas monossilábicas, chamada “A Máquina”. Eu estava tentando aprender a tocar violão, foi uma das primeiras com violão. E o Saccomani, o jurado mais zica, falou (imita o Saccomani), “você não vai dar uma de espertinho aqui, se fizer isso não vai levar. Não é porque você vende churrasco grego que você acha que vai me comover”. Falei, “vou cantar  a minha música, foda-se. Estou aqui mesmo. Não importa se perder”. E perdi mesmo.

Fui para casa e fiquei vendo o programa, e não fique contente, achei que aquela parada era minha. Aí rolou a segunda edição do programa. Me inscrevi de novo, mas pensei, “dessa vez vou pilantrar”. Montei uma estratégia para vencer. A ideia era cantar a minha música de novo, que eu ia vencer a edição do programa. Eu percebi que a edição era filha da puta. Quando o cara falava um voto negativo para você, na edição do programa mostrava a feição mais triste do seu rosto. Aí eu pensei, “vou fazer a mesma cara o programa inteiro”. Fiquei treinando o tempo todo no churrasco grego (risos).

Faz aí a cara de vencedor do Astros (risos)

É assim, ó. Além disso, resolvi cantar a minha música e levei meu violão. Não sabia tocar, mas só pra tirar um sarro deles. Eu cheguei para cantar e falei, “ó, eu tou com uma música que eu quero tocar, mas tá vindo outra na frente”, e ele vai falar, “toca essa que tá no seu coração”. Você pode conferir isso no vídeo. Ele perguntou, “de quem é essa música”, e eu disse, “é minha”, e comecei a tocar na hora (risos). Já era, já tva gravando. Toquei violão muito mal, mas eu interpretei muito bem. Depois na outra semana, cantei a quel eles queriam e eu ganhei um carro. Foi aí que eu me descobri como cantor. Sempre gostei de rap, da levada, mas descobri esse talento.


Terra Preta faz cara de vencedor do Astros

E o que isso fez com a sua música?

Me deixou confuso. Naquela época eu tinha 21 anos. A sensação que eu tinha era “ganhei um reality show, agora vai dar certo”, mas não deu nada. Fiquei num impasse, não sabia para onde ir. Não adiantava eu ir para um empresário de sertanejo, e ao mesmo tempo, quando fui pra TV, me afastei daquele pessoal que tava nas batalhas, que tava correndo na rua, cantando na Augusta, vendendo CD de mão em mão.

Fique um ano no dilema, “porra, o que eu faço?”. Peguei o dinheiro do carro e comprei uma casa lá na minha quebrada. Saí do SBT e já vendi o carro. Gravei uma música chamada “Não Chore”, mais nesse estilo que a TV pedia. Achei que tinha que usar meu talento pra isso agora. Só que sem empresário, sem direcionamento, sem o momento certo, não virou. Coloquei essa música em várias rádios no interior de São Paulo. Pegamos os contatos de 15 mil rádios (risos) e fomos falando no MSN de uma por uma. Eu comecei a receber os direitos autorais da música, mas não pintou show nem nada, e hoje as pessoas estão conhecendo ela na internet.

Leia a segunda parte da entrevista com o Terra Preta na sexta-feira (23), aqui no portal Soma.

tags:
 rap nacional, terra preta, r&b, o romance e a melodia da rua

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