No dia mundial do rock, Soma lista ex-roqueiros que deram certo

De Roberto Carlos a Moby, lista mostra que o rock nem sempre é o melhor caminho.

POR AMAURI STAMBOROSKI JR.
publicado em 13.07.2012 10:20  | última atualização 13.07.2012 10:48

Quatro ex-roqueiros POR Jonas Pacheco (Imagens: Divulgação)

No dia internacional do rock, essa data nefasta dedicada ao já maltratado estilo, é de praxe que comecem a ressuscitar das tumbas dezenas de dinossauros que nunca fizeram nada de interessante, mas que são reverenciados pela sua “atitude roqueira” ou algo que valha. Como a gente aqui na Soma gosta muito de rock, mas nem tanto de unanimidade, elaboramos uma lista com 10 ex-roqueiros que se deram muito bem ao largar as guitarras e militarem em outras searas musicais – pelo bem deles e também pelo nosso. Saca só.

Roberto Carlos



Beleza, o Rei começou na bossa nova, com um disco que nem ele gosta de lembrar, e conquistou todas as gatinhas do Brasil fazendo rock’n’roll e depois iê-iê-iê. Mas lá por 68 ele mudou ainda mais o próprio jogo, abraçando primeiro a black music (na melhor fase de sua carreira) e se bandeando de vez para a canção mais romântica – ele chegou a participar e vencer o ultra-brega Festival de San Remo, na Itália. Durante a década de 70 o caminho para o romantismo não teve volta, e lá pelo epônimo álbum de 72 já não havia mais muitos traços de rock em sua música. No final, Roberto só teve a ganhar com isso, envelhecendo junto com seu público e se tornando o cantor mais popular do país.

Brian Eno



Ser tecladista do Roxy Music já não era a coisa mais roqueira do mundo, mas mesmo depois de largar o grupo de Brian Ferry, o futuro produtor do U2 e Coldplay ainda tentou a sorte no lado mais esquisito do glam rock com discos como Here Comes the Warm Jets e Taking Tiger Mountain (By Strategy). Porém, depois disso o ex-aluno de Cornelius Cardew foi bem além: inventou a ambient music (com Another Green World, Discreet Music e a subsequente Ambient Series), fundou a Obscure Records para lançar música experimental e criou o “global beat” ao lado de David Byrne em My Life in the Bush of Ghosts, entre outras dezenas de feitos anti-roquistas.

John Lydon



John “para sempre ex-Rotten” Lydon foi acusado amplamente de “salvar o rock” no fim dos anos 70 como vocalista os Sex Pistols. Mas foi com o anti-roqueiro PiL que ele, nas suas próprias palavras, pode expressar suas verdadeiras ambições musicais, que passavam bem longe dos riffs hard rock de Steve Jones. Ao lado de Jah Wobble (saca o nome) e Keith Levene, Lydon desenvolveu uma música totalmente alienígena aos hinos de três acordes do punk, misturando influências de dub, kraut e discothéque em faixas como “Death Disco”, “Poptones” e “Careering”. Anos depois Lydon voltaria com os Pistols (e também com o PiL, que entrou em hiato em 1993), sempre deixando claro que estava nessa pela grana, e não pelo rock.

New Order



É verdade que a encarnação anterior do New Order, o Joy Division, não era lá o grupo mais roqueiro do mundo, mas ainda assim tinha lá seu charme desconjuntado. Porém abraçar a disco e se tornar uma banda de dance é um passo que poucos ex-punks encarariam com a naturalidade e o sucesso do New Order. A transição demorou um disco – Movement – mas quando entrou em curso de vez, com singles como “Temptation”, era sem volta. No final das contas, se tornaram um dos grupos mais influentes da música eletrônica – com guitarra e tudo – com clássicos tão imortais das pistas quanto “Blue Monday” e “Bizarre Love Triangle”.

Beastie Boys




Um trio de punks judeus resolveu tirar uma onda fazendo rap e lançou o single “Cooky Puss”, baseado em um trote. Os produtores Rick Rubin e Russell Simmons viram nos branquelos uma chance de tirar uma grana da juventude classe média dos EUA e lançaram a versão branca do rap-rock do Run-DMC em 1986, com Licensed to Ill. Para nossa sorte, eles maneiraram nos riffs e absorveram diferentes influências durante o resto da carreira. Se eles ainda são o grupo de rap que os roqueiros podem gostar, na real o que faz dos Beastie Boys uma banda legal é o que de menos rock eles tem – tipo esse som aí em cima.
 
Danny Elfman



Para os padrões dos anos 80, o Oingo Boingo era uma banda de rock – na verdade o grupo saiu da new wave para ficar cada vez mais guitarreiro ao longo da década. Só que enquanto isso rolava, Elfman recebia o convite para fazer a trilha de Pee-wee’s Big Adventure, longa de estreia de Tim Burton (eu também não sabia disso, na moral). Daí pra frente, foi só felicidade, com Danny compondo quase todas as trilhas dos filmes de Burton e o tema dos Simpsons, faturando 37 prêmios (mas nenhum Oscar), decretando o fim da perda de sua audição por causa dos shows e a perspectiva de, a partir do fim da banda em 1995, nunca mais ter que cantar “Stay”.
 
Moby



Se existe alguém para quem o rock não compensa é para o produtor de eletrônica careca vegan. Nos anos 80 tocou no underground hardcore dos EUA com os Vatican Commandos, e depois ainda teve outra banda, meio pós-punk, chamada AWOL. Mas foi quando resolveu se jogar na música eletrônica que a carreira musical decolou, primeiro em 1991 com “Go”, hit das pistas do Segundo Verão do Amor britânico que sampleava a trilha sonora de Twin Peaks. Em 96, lançou um disco de punk rock, Animal Rights, sem muito sucesso. Mas aí ele ganhou de vez as massas (e as trilhas de comerciais de TV) com o ótimo e nada roqueiro Play, de 1999. Mais tarde ele voltaria a pegar a guitarra, na turnê de Hotel, e nunca mais ouviríamos falar dele.

Mr. Catra



Você pode não acreditar – e provavelmente não vai – mas antes de virar o profeta salomônico poligâmico do funk carioca, Mr. Catra foi roqueiro, daqueles que ouviam Dio e Ozzy Osbourne e tinham banda cover. Quem o salvou de possíveis intermináveis noites tocando roque em bibocas suadas para ser pago em cerveja foi o DJ Leandro Neurose, com quem montou  o grupo Contexto. Foi dali que saíram futuros clássicos como “Cadê o Isqueiro”. Mais tarde colaria forte no funk carioca, passando por fases (consciente pesadão, proibidão) até chegar na putaria que o consagrou perenemente até fora do gênero, tocando intermináveis noites em puteiros suados e recebendo um cachê melhor que meia dúzia de latinhas de cerveja – e não estamos falando só de dinheiro.
 
Kiko Dinucci



Um dos grandes nomes da nova música brasileira, Kiko Dinucci começou sua vida musical no ambiente mais roqueiro possível. Fã de Slayer, tocava guitarra numa banda cover de thrash metal chamada Necrophobia, ainda com 12 anos. Mais tarde entrou para o Personal Choice, grupo pioneiro do hardcore straight edge no país. Porém foi o interesse por Sonic Youth que o liberou do roque. “Eles trabalhavam as harmonias como nenhuma outra banda de rock fazia [...]. Quando comecei a ouvir João Gilberto, vi que tinha muito a ver com Sonic Youth. A visão de arranjos deles me abriu o olho para o jazz, o samba, a MPB etc. Quando dei conta, já não tocava mais rock”, contou em entrevista à Soma em 2008. Depois disso, foi só samba, pesquisa em tradições afro-brasileiras e outros gingados. Sorte nossa.

Projota



Em entrevista à Soma, na edição 27, o rapper conta que começou a ouvir e compor rock influenciado pelo irmão mais velho. “Quando aprendi a tocar violão aos 11, eu nem ouvia rap. Não tinha internet, então eu comprava revistinha de cifra e ficava tirando uns rocks. Eu tocava o que aparecia. Daí comecei a escrever rock, e aos 14 comecei a compor música evangélica, meio Oficina G3”. Foi aos 15 anos, ouvindo RZO, Racionais e o programa Espaço Rap, que o futuro maestro do Lauzane resolveria trocar de estilo. Difícil é imaginar se Projota gravaria seu DVD Realizando Sonhos se tivesse escolhido o caminho do maltratado pop rock nacional.

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